Ivan Lessa: Que semana, sô!

Continuo impactado pelo fun-ero-show de despedida do nunca por demais saudoso Michael Jackson, dito também Whacko Jacko pela imprensa britânica, uma espécie de Menino Maluquinho do grande Ziraldo. Quis o Senhor em suas sábias alturas que a diferença de horas entre Los Angeles e Londres corresponda a â¿¿ não sei quantas â¿¿ mas a verdade é que todas as televisões que transmitiram na íntegra o enterroso espetáculo do talentoso artista começaram sua mais que louvável cobertura de duas longas horas de sonho, ilusão, retórica exaltada, depoimentos comovidos, para não mencionar a ecologia global, começaram, dizia eu, antes de errar o passo e dar uma caminhada para trás na Lua, dizia eu, repetindo o refrão, o megavelório músico-discursal às seis da tarde, hora em que todas as gentes, depois de darem duro até as cinco da tarde, pediram para sair mais cedo e, aí então, no santuário sagrado do lar, decidirem se assistiam à maratona oratória-musical no Canal 2 da BBC, na BBC News, no Channel Five, na CNN, na Sky News ou na TV 5 francesa, que pegaram o touro à unha (e perdão pelo símile inapropriado) em toda glória e esplendor de suas três horas de duração.

BBC Brasil |

Que dizer que não tenha sido dito e cantado e discursado e narrado? O precocemente desaparecido canoro-bailarino foi louvado em oração e canção por todo mundo que é alguém na vida. Impossível negar. Liz Taylor e Nelson Mandela não compareceram, para não se emocionarem em excesso, correu à boca pequena, mas mandaram seus votos e pensamentos sinceros de profundos e sentidos pêsames.

Eu disse ser impossível negar? Pois eu nego. À boca grande e do fundo de minha poltrona de couro na sala, diante da telona plasmática de minha tevê, eu quase que posso jurar que, entre a ululação exaltada de Mariah Carey e a peroração multirracial do reverendo Al Sharpton, eu vi os dois na plateia de mãozinhas dadas. Chorando, chorando. Foi um espetáculo dantesco, diria um gaffeur. Sejamos justos, foi o show dos shows. O longamente sonhado megashow que aproximou ainda mais brancos e negros de negros e brancos, sem falar de negros de negros e brancos de brancos. Finalmente, e por cruel ironia, a coisa se deu diante de um caixão de ouro contendo os etéreos restos imortais do Rei do Pópi.

Enfim, ali estava, no palco ocorreu, e um bilhão de pessoas participaram da concretização do sonho pelo qual se bateu a vida inteira o precocemente desaparecido artista â¿ aquele mesmo que fazia que andava pra frente mas andava pra trás, dava um gritinho em falsete seguido de uma boa conferida na genitália. O sonho acabou? Não, é a realidade que apenas começa. *** Em meio a esse delírio que foi a semana que passou, nem pude comentar o fato de que um parlamentar, em medida surpreendente, uma espécie de moonwalk político, revelou que o serviço secreto britânico, mediante seu braço interno, o MI5, esteve envolvido na tortura de cidadãos suspeitos de terrorismo. Trata-se da primeira vez que uma informação dessa natureza chega ao domínio público.

Sem dúvida, a revelação empana â¿ e como! â¿ a reputação dos órgãos de segurança do Reino Unido. James Bond, o 007, apesar de se bater com outro braço, o externo, MI6, fica com seu nome abalado, nos meios pouco alfabetizados, mas isso, é de se supor, não chegará a contar ponto contra na feitura de sua próxima aventura, que, segundo consta, esta prestes ou mesmo já teria começado a ser filmada em segredo.

***
Eu falei em "meios pouco alfabetizados". Que coincidência! Leio nas folhas brasileiras que apenas 24% de nossa civilização dita letrada consegue entender qualquer texto que apresente uma remota complexidade. As agências noticiosas que revelaram o chocante dado, ou os meios de comunicação que o divulgaram, não deram um exemplo do que consideram "complexidade".

Acredito, no entanto, que não seja uma racionalização contrária ao segundo princípio, ou lei, da termodinâmica. Pessimista que sou, sempre às voltas com um moonwalk da imaginação e da sensibilidade, suponho que a "complexidade" de que falam deva estar contida em trecho de entrevista com Caetano Veloso ou uma nota policial sobre um assalto a agência bancária no Grajaú. Tem que haver uma explicação plausível para esse uso e abuso do Twitter, como se a simplificadora e simplória novidade informática fosse uma espécie de Matte (nesse a reforma não chega perto) Leão. Num largo gesto patriótico (desculpe se eu dei com a mão na cara do senhor, moço), juro que 24% da humanidade, inclusive chineses han e uigures, encontram dificuldade em qualquer texto, inclusive bula de vidrinho de aspirina.

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Agora, só resta esperar a ressurreição. Sim. Dele.

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