Eu estava quieto no meu lugar vendo televisão. Um resfriado pintando.

No auge da frioreira que se abateu por este hemisfério norte que escolhi para passar a vida. Sete da noite. Hora do Channel 4 News, para mim o menos desequilibrado dos telejornais. Não mentirei. Gosto mais até - e que ninguém nos ouça - do que o jornal da noite da BBC. Verdade que o horário me libera para ver todas as séries americanas sobre mortes e detetives horrendos. Mas o que é a verdade se não uma variação pouca imaginativa da danada da realidade em que vivemos?
Filosofado isso, dentro dos melhores parâmetros de Paulo Coelho, voltarei a continuar na bica de um flu (de influenza, soa melhor) diante do Jon Snow, pois esse é o nome do apresentador que, nos Estados Unidos e no Brasil, em homenagem à Marinha, resolveram batizar de "âncora". Seu sobrenome, para aqueles que não viram o desenho animado do Walt Disney, quer dizer "neve". Muito adequado, penso nestes dias em que por ele e ela estou cercado, quase ilhado. E com olhos marejando e nariz pingando.

Daí vai que, entre uma reportagem sobre o primeiro-ministro da Irlanda do Norte, sua senhora e um garotão amicíssimo da primeira-dama, e outra sobre prostituição de menores no México, tudo em segmentos de pelo menos 10 minutos, tal como deve ser, o meu querido Jon Snow, de pé, que aqui é a última fashion, ou moda, de apresentar telenoticiários, mencionou a gripe suína. E o bestalhão aqui que já havia se esquecido dela, como se fora um OVNI, o Triângulo das Bermudas ou a Marly Tavares.

A humanidade é ingrata. Ou pelo menos eu sou. Acompanhei mediaticamente o desenvolvimento daquela que, descobri, era uma variante do vírus H1N1 e que passara veloz de emergência a pandemia. Pelo que a mídia me informava, no mundo inteiro gente que não acabava mais morria em casa, entre parentes aflitos e protegidos por máscara, e pelas ruas, tossindo sangue encostada no poste.

Devido a minha idade e minha hipocondria, ambas adiantadas, fui logo vacinado na clínica aqui no bairro onde estou registrado e, quando lhes dá na telha, cuidam de mim. Meu médico, que não me cobra um tostão, avisou antes de aplicar a vacinaçãozinha com nome de sobremesa italiana, algo assim feito tiramisu: "Olha, vai doer e você vai sofrer um sem número de efeitos colaterais." Não doeu, não colaterei nada. Fiquei só urubuservando, da janela de casa, macabro que sou, os suíno-gripados sucumbindo pelas esquinas de meu quarteirão. Coisa alguma. Fez tudo forfait.

Resignado, voltei a minhas mazelas há nove anos habituais: enfisema, arritmia, o escambau.

Na segunda-feira, dia 11, quase de passagem, meu amigo Jon Snow (gozado como a gente pega intimidade com essa gente da televisão) falou que a danada da vacina vinha passando por uma pandemia de pedidos cancelados.

A Alemanha mandou os laboratórios pararem com a remessa. Três dias depois da França dar o blam! (é tiro) de partida. A ministra da Saúde francesa, Roselyne Bachelot, comunicara oficialmente ter dado uma brecada em 50 milhões de doses, o que é, e peço perdão pelo infame jogo de palavras, o que é dose.

Outros países estavam entrando na fila. Inclusive este aqui onde ouvi o noticioso. Fui catar mais informações na net. Blicas. Consegui apenas um dado que me parece importante. Wolfgang Wodarg, presidente da influente Comissão de Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, convocou membros da Organização Mundial de Saúde para discutir, ou prestar contas, daquilo que chamou de "escândalo da falsa pandemia, um dos maiores de século".

Não dou o nome do laboratório, ou laboratórios, que faturaram horrores ameaçando o resto do mundo com a pandemia. Ao que parece, com apenas o lucro em vista. Não dou o nome porque sei que eles vão na casa da gente e dão uma vacina que é, essa sim, tiro e queda. Depois viro filme com Julia Roberts fazendo meu papel na tela. O que me parece tão sem graça quanto a - dizem - "falsa" gripe suína.

Atchim! E agora lavem bem as mãos.

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