A Companhia das Letras está lançando uma edição especial de dois ensaios do escritor italiano Italo Calvino. É um livro pequeno, de capa dura, de impressão e diagramação impecáveis e que se destina a celebrar a união entre a Penguin e a Companhia, que juntas lançarão os clássicos no Brasil, a partir do ano corrente.

O primeiro ensaio é o que dá título a estas linhas, assim mesmo, sem interrogação e de acordo com o abominável "acordo ortográfico" da Língua Portuguesa em vigor, supostamente, desde o ano passado, mas que, felizmente, virou e continuará a ser apenas mais uma reforma ortográfica brasileira. E acabaram as objeções.

Sempre tive paixão pelo Calvino, a quem trato com a maior intimidade, e achava que tinha lido tudo dele, ao menos em ficção, mas confesso que não conhecia nem o que dá título ao esplêndido opúsculo nem o segundo, As odisséias na Odisséia, que eu grafo, implicante que sou, com o acentinho para mim clássico há décadas.

O que me desbundou, como dizem os eminentes críticos literários, foi o Por que ler os clássicos. Vinte e duas páginas apenas, mas argumentadas com a clareza e a concisão de quem - impossível evitar dizê-lo - já virou um clássico. Clássico moderno, ao menos, embora não seja a eles que Calvino esteja se referindo.

Devagar e lúcido, Calvino vai enumerando as razões para se ler um clássico. Como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo. Aqui entro eu, metido a besta, e já vou peruando: mas a definição de um clássico é precisamente a de dar a impressão de ser a coisa mais óbvia do mundo, só que não tínhamos reparado antes por excessivo respeito ou mesmo medo. Não é preciso tratá-los aos pontapés, vou dialogando com o mestre italiano, mas ir aos poucos, página após página, neles reconhecendo um velho, ou melhor novo, amigo.

De cara, Calvino estabelece o seguinte:
"Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo'..."
E mais:
"Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado (...)"
Prossegue costurando com agulha de ouro, feito aquele alfaiate:
"Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual."
Mais umazinhas:
"Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira."
"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."
E vou parar de citar, ou copiar, para não tirar o prazer de quem tiver o bom senso de se chegar ao ensaio, aliás já publicado pela própria Companhia em 1991. Só mais unzinho antes de eu dar minhas peruadas:
"Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança de antigos talismãs."
Depois de atravessar as tais 22 páginas, se me ocorreu um pensamento, para variar nada original. Tudo que Calvino explicita em suas linhas pode ser aplicado a todas as artes. No meu caso, principalmente as populares. Como apreciar jazz sem conhecer seus clássicos? Ou seja, Buddy Bolden, Jelly Roll Morton, Kid Ory, King Oliver, Louis Armstrong. Cabe neles a argumentação de Calvino como uma luva, para usar de um símile também clássico, só que sem graça.

E o cinema? Ponto por ponto válido para cinema toda e qualquer ponderação calviniana. O menino ou a menina gostaram de Avatar? Tudo bem. Agora cheguem-se a Griffith, Murnau, Eisenstein, von Stroheim e a lista, como em tudo mais, segue por aí afora até ontem mesmo, se quiserem.. E não, eu não esqueci o samba, não, senhor: Pixinguinha, Donga, Sinhô, Orestes Barbosa, Ismael Silva, Noel Rosa, gente que não acaba mais.

Tudo vai melhor com um clássico. Até mesmo Coca-Cola e, principalmente, Guaraná Antarctica, este também, em sua categoria, um clássico.

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