Ivan Lessa: Painel investe contra meu ganha-pão

Eu sabia que a coisa não poderia durar. Um dia a casa cai.

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Acabou-se o que era doce. Todas essas coisas que o companheiro aí encontrará em O Pai dos Burros, do Humberto Werneck, dicionário de frases-feitas e lugares-comuns, que eu venho promovendo em todas as ocasiões possíveis, por uma pura questão de vaidade, já que me considero ponta avançado da seleção de frases-feitas e vigoroso lateral esquerdo dos lugares-comuns. Escrever, para mim, é enfileirá-los a eles, lugares-comuns e frases-feitas, e deixar que se virem, sempre na esperança de que um leitor arguto (será que os há?) não perceba que eu acabei de passar por ele levando a redonda Leonor por entre suas pernas.

Enchida a linguiça inicial, abro um segundo parágrafo para ir direto ao assunto. Quer dizer, direto, direto não. Apenas assuntando a questão, ou questionando o assunto (eu avisei que sou mais do que razoável em matéria de lidar com as palavras). Agora, por uma questão que não diz respeito a ninguém mais a não ser eu mesmo, chego onde queria chegar.

Meu ganha-pão. Escrever. De preferência, e se possível for, coisas deste país que, ao todo, levou 34 aninhos de minha vida. Não leio jornais. Procuro assunto para a próxima crônica. Não vejo televisão. Procuro assunto para a próxima conta. Em verdade vos digo que mal vivo minha vida (que não é lá grande coisa), limito-me a tentar enxergar nela padrões que possam interessar a um eventual freguês.

Por ter aberto novo parágrafo, vejo-me forçado a citar um pouco e improvisar em cima da nota que rasguei na marra no jornaleco que eu vinha lendo no metrô. A manchete já me deu calafrios e ameaça de pânico. Lá estava, e vou traduzir livre como aquele táxi do Millôr: "Novo painel pretende reduzir estudos supérfluos". Admito que estava, e entre aspas, "pointless", no original. Ousado e criativo, empreguei, em português brasileiro e reformado ortograficamente, "supérfluo", um adjetivo e também substantivo masculino de minha particular preferência - eu que sou, há mais de 10 anos, pointless e supérfluo.

Ao jornalismo, para mostrar que tenho diploma e carteirinha plasticizada: o governo britânico alinhará, muito em breve, um painel com a missão exclusiva de dar uma peneirada nesses estudos que abundam no Reino Unido e sua imprensa, uma vez que sua inutilidade (dos estudos, digo. E pensando bem, do governo também) está mais do que comprovada. Para tal fim, a verba para apenas a subsistência de estudos indispensáveis e necessários passará agora a ser apenas de cerca de 1 bilhão e meio de dólares. Na nota não dizem quanto estão gastando no momento. Timidez, sem dúvida.

Curiosamente, não sou o único a reclamar. Sim, meus motivos são egoístas, são esses estudos estúpidos - e engrosso porque mexeram no meu rico dinheirinho - objetivos criticados por muita gente que vê na medida uma repreensível restrição à liberdade acadêmica. Não posso, porque continuo sendo um estrangeiro procurando ter modos, não posso, repito e gaguejo, insinuar que entre essa "muita gente" que acabo de citar não tenha um belo trianon (esse o coletivo de acadêmicos, pois não?) de interessados, e, mais uma vez, cito-os: a-ca-dê-mi-cos.

Pensar que nunca, nunca mais ficarei sabendo o que gente de tanta escolaridade descobriu em assuntos como "a política dos gêneros em filme de Tarzan e Jane, "ciência do surfe" e "estudos sobre David Beckham". Três trabalhos de peso que - juro por e para Deus! - existem ou existiram mesmo.

A realidade passará a ser ainda mais difícil do que vem sendo de uns tempos para cá.

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