Ivan Lessa: Os Simpsons corrigidos politicamente

Eu sou vidrado num leite chocolatado que até há meses vendiam num dos supermercados do bairro. A campanha contra a obesidade britânica vestiu seu uniforme de guerra, ou seja, de babá, e deu ordens para acabarem com essas gorduras aí, como diria o bom Ronald Golias.

BBC Brasil |

Acabaram. O leite está lá de novo. Só que, agora, sem gosto de nada.

O curioso é que a medida anti-obesidade não é para tudo. Não chega a ser proibirem de fumar em bares e restaurantes. Selecionam a dedo-duro. Pura pinimba. Os ingleses, que também são os britânicos, vêm, como rótulo de barra de chocolate, com todos seus ingredientes estampados em partes (algumas visíveis, outras secretas) do corpo. Lá, além dos corantes artificiais e conservantes que contém, estão as palavras mágicas: sujeito a sucumbir diante de balas e doces, bombons e confeitos.

Não compreendo como é que se pode viver num país com dois pesos e 34 medidas. Quer dizer, compreender eu compreendo, mas prefiro não falar nisso agora.

Outra coisinha que me aborrece: os tais dos orgânicos. Tudo está virando orgânico. Cenoura, beterraba, sorvete, moça de telenovela. Sai muito mais caro e consta que há enganação a mais não poder na jogada. A coisa está sendo devidamente examinada pelas autoridades, que, espero, não sejam as mesmas que se batem batendo na gente e em nossos paladares chegados a um açúcarzinho.

Agora mesmo, talvez pela primeira vez em três décadas, me deu vontade de dar um pontapé inicial num abaixo-assinado ou, pelo menos, mandar uma carta para o The Times, coisa que ainda faz parte do protocolo, apesar de toda decadência reinante e governante.

Seguinte: o Departamento de Saúde está gastando por volta de US$ 1 milhão com pequenas intromissões comerciais no início da transmissão de um episódio da mais "desfuncional" ("desfuncional" pegou aí, me juraram) das famílias americanas, Os Simpsons. Há uma danada de uma campanha intitulada Change4Life (mais ou menos Mudança para a Vida) que está patrocinando um filmezinho pobre e sem imaginação, com paupérrimos bonequinhos de massinha sentados num sofá sendo politicamente corretos. Feito a cena inicial do seriado animado, ora em seu vigésimo ano de sublime existência.

Os bonequinhos anti-obesidade só chateiam. Ninguém se preocupou com o fato de Homer viver tentando esguelar o filho, Bart. A campanha, no entender de muita gente boa (a Bryony Gordon, do Daily Telegraph, por exemplo), é ridícula e a condescendência governamental é digna de um episódio da bendita série - feito daqueles da família toda no Rio - ferino e impagável, que mande o máximo de brasa possível. Lembremo-nos, simpsonianos que somos, que mais de uma vez a turma já debochou da Rainha, de Tony Blair e de todos os ingleses e suas famosas e alopradas dentições.

A ministra-adjunta para a saúde pública, Gillian Merron, alegou que os Simpsons são "leais uns aos outros e sempre dispostos a enfrentar os desafios sofridos pelas famílias de hoje em dia. (...) Ninguém melhor que eles para dar a mensagem de que uma dieta saudável poderá lhes ser útil para a saúde."
Resumindo: a ilustre dama, se viu algum episódio da série, não entendeu blicas do que se trata. Como diria Homer, antes de ser dublado para outras línguas, "D'oh!"
A bobageira não para aí. O mesmo ministério, esse dito da Saúde, trama ainda introduzir cestas de frutas e vegetais (orgânicos, por certo) na usina nuclear em que Homer trabalha. Essa turma está mais por fora que barriga de Homer Simpson em sua calça azul. Não manjam nada, rigorosamente nada. Vão, no entanto, burocraticamente, engordando, engordando, engordando. Nós, que vamos ao mercado fazendo, sempre que possível, ouvidos de mercador às suas tolices, não damos a mínima atenção. A não ser nos casos inevitáveis de "atos secretos" feito o dos leites chocolatados.

E o funcionalismo ministerial, ao contrário do grande, do magnífico Homer, sem irem nem de cerveja nem de donut (uma espécie de sonho, geralmente em forma de rosca, com ou sem recheio de creme ou geleia) vai engordando suas panças e pegando o (gordo?) ordenado no fim do mês.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG