Ivan Lessa: Os documentos do tamanho

Jan Vinzenz Krause. Lembro como se fosse hoje.

BBC Brasil |

De Singen, na Alemanha. Sul do país.

Não estou certo se foi este ano ou ano passado que ele fez uma breve aparição nos noticiários e na minha agenda de pessoas interessantes a serem pesquisadas. Na ocasião, ele chamou a imprensa e alegou ter produzido uma "camisinha em spray".

Apresentou até o protótipo aos jornalistas alegremente reunidos em seu laboratório e explicou tratar-se de um aerossol que continha látex, criando assim um preservativo ideal adaptável ao corpo, ou, melhor dizendo, à "parte interessada" do corpo em questão.

Era uma invenção extraordinária destinada a mudar os destinos da humanidade. Alguns repórteres começaram a fazer as perguntas pertinentes:
"Como é que se tira depois?"
"Com acetona? Arderá?"
"Não há perigo de vazar?"
Essas coisas que só ocorrem a jornalistas. Jan Vincenz Krause foi ficando sem jeito e acabou por encerrar a coletiva. O aerossol de Eros não chegou a ver a luz do dia. Ou as vitrines das boas ou más farmácias do ramo.

Jan Vinzenz Krause não esmoreceu. Trabalhador incansável da Consultoria de Camisinhas, sediado em Singen, como já se disse, voltou ao laboratório, abanou com tristeza a cabeça ao guardar no fundo de um armário o protótipo do látex em lata, e voltou à luta. O negócio de Jan Vinzenz Krause, como ele o sabia desde pequerrucho, era o pênis masculino (não há a versão feminina), e não descansaria enquanto não deixasse sua marca no mundo.

Pois cá está ele de novo. Sem invenções. Conduzindo pesquisas apenas. Mas que pesquisas! Jan Vinzenz Krause, com a verba aprovada pelo Instituto da Camisinha, que ele mesmo dirige, passou oito meses instigando (seus métodos de persuasão são impecáveis) 10.500 homens em 25 países a, no reduto de seus lares, ou onde quer que não desse polícia, medissem seus pênis e registrassem o resultado num banco de dados. Saliente-se que os pênis internacionais deveriam estar prontos para entrarem em ação, caso contrário, claro, não haveria muito sentido na empreitada.

Jan Vincenz Krause tinha a verba. Não tinha era o pessoal com a fitinha, ou fitona, métrica que fosse lá conferir a veracidade dos comprimentos encontrados. Sonhador e idealista, um humanista em todos os sentidos, o cientista alemão teria que fazer o que aprendera na escola dominical: confiar em seu semelhante.

Não sei, não.

Ao que interessa: os resultados. Ao que parece, e chega a assustar, os franceses, em média, afirmam precisar de camisinhas de 15,48 centímetros de comprimento. Precisos, nossos amigos gálicos. Em todas as minhas pesquisas sobre o assunto, nada vi sobre a largura, a espessura. Trata-se, quero crer, de um dado importante.

Em todo caso, aí estava a dura realidade: os descendentes de Asterix davam de pau em seus colegas de outros países. Deles era a mais poderosa "la tronche", conforme a chamam na intimidade. Na ausência de uma parceira, quem sabe, as camisinhas francesas poderiam mesmo servir para cobrir e transportar debaixo do braço, a moda do país, as famosas e deliciosas também (também? Como também? Que digo eu?) "baguettes", dando enfim um toque mais higiênico à sua compra.

Em último lugar, sentadinhos encabulados no banco de dados, chegaram os herdeiros de Péricles, nossos amigos, os gregos. Três centímetros a menos que os franceses para seus "bibikos", como é conhecido o pênis nos meios "penis" da bela Hélade: 13,48 cm, ou por aí. Em compensação, eles nos deram a democracia, estátuas, literatura clássica incomparável. Pena que tenham parado com os mitos. Por que não se disseram dignos de, só para citar um número qualquer, 16,45 cm?
Desconhece-se comprimento e espessura das outras 23 nacionalidades envolvidas na pesquisa. Terá Jan Vinzenz Krause dado uma chegada à América do Sul? Entre as nacionalidades terão sido convidados a se medirem (nós adoramos essas coisas) os brasileiros?
Nós já temos a maior proliferação de milionários do mundo, conforme noticiou-se ainda outro dia. Nada mais natural que o tamanho de nossas "proles" e "pembas" esteja à altura.

Mais rigor, Herr Krause, mais rigor.

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