Ivan Lessa: O país estrangeiro

O passado é um país estrangeiro; lá, eles fazem as coisas de modo diferente. No meu entender, uma das mais espetaculares frases de abertura de romance.

BBC Brasil |

Aqui, entre os ingleses, eles concordam. Vivem citando ao menor pretexto de uma nostalgia. Curioso não ter pego no Brasil. Está lá no filme de 1971, dirigido por Joseph Losey, roteiro de Harold Pinter, O Mensageiro(The Go-between). Michael Redgrave a diz logo no início.

Para quem, como eu, o passado é hoje um país estrangeiro - o Brasil, o Rio de Janeiro - nada mais fácil do que, volta e meia, ele vir me assombrar. Assombrar. Único verbo cabível. Suporto o olhar aborrecido dos nascidos entre os anos de chumbo e os de latão, aqueles que logo seguiram os primeiros. Um olhar enfadonho de quem diz, "Lá vem esse chato com as mesmas histórias de novo".

E, eu, o grande, o imenso chato, falo e canto o Rio Antigo, como se estivesse tentando imitar a Alcione no samba desse nome, da autoria de Chico Anísio e Nonato Buzar. A gravação original está lá no YouTube, que uma boa alma se encarregou de ilustrar com esplêndidas fotos e estampas da época decantada: Zizinho, PRK-30, Bonde 13 de Ipanema, Rian, Hotel Leblon, Lamas, Valter Pinto e por aí afora. Recomendo. Ouvir e guardar. Para quem estava vivo e pegou uma beirada na época, chorar um pouquinho não tem nada demais. Não haverá ninguém ao lado para se entediar debochado. E sim, nós fazíamos as coisas de modo diferente. Passe 30 anos longe de sua cidade e depois me conte de países estrangeiros.

Há coisa de uns 2 anos, por motivos apenas venais, passei 10 dias no Rio. Que, aí sim, é que as pessoas faziam as coisas de modo diferentíssimo. Para pior, que fique claro. Escrevi um texto, também venal, e mendaz, já que não havia condição de botar em letra de forma o que eu verdadeiramente sentira. Por quê? Por medo de ser mais odiado e desprezado do que já sou. Nós não gostamos quando não falam só maravilhas de nossa gente e nossas coisas. Nisso está tudo que entendemos e praticamos como política. A coisa não está grande coisa, mas todas as coisas vão melhorar espetacularmente. Não está aí o Lula para o comprovar?
Por falar em Lula e espetacular: nosso presidente sofreu uma espetacular condescendência por parte de Obama, durante a reunião do G20 e ninguém aí reparou. Só fui pegar em jornal britânico, o Guardian, de 9 de abril, onde a colunista Esther Addley notou e mencionou o fato. Cito-a citando Obama: "I love that guy! He's the most popular politician on earth! It's because of his good looks!" A colunista encerra a nota dizendo que, em foto e filme, um Lula gracioso e de sorriso doce resiste à tentação de chamá-lo de um "patronising FDP". Só que ela botou FDP por extenso, com todas as letrinhas, em negrito, num português impecável como sua sensibilidade de jornalista. Sobrou apenas, para o consumo, no Brasil, que ele, Lula, "era o cara". Ninguém notou, ou quis notar, a condescência que ultrapassava em muito a simples gafe.

Mas aos meus 10 dias de Rio em 2006. Não, ainda não havia muros nas favelas. Os horrores estavam visíveis e "sentíveis" como haviam me avisado. Iguais ou talvez um pouco menos piores do que hoje. Amigos me levaram de carro a diversos passeios pela cidade, para me mostrarem orgulhosos, ou cumpridores de um doloroso dever qualquer, tentando ainda, quem sabe, é possível, me ajudar na árdua tarefa que eu tinha pela frente, ou seja, escrever a respeito daquilo tudo. Aos poucos, meu queixo foi caindo cada vez mais, como caem os queixos e saltam os olhos, nos desenhos animados de Tex Avery. Nada no entanto me preparara para o Bar Vinte. Lá havia um "obelisco" e "arcadas" que ligavam o nada a parte alguma. Parece que todos achavam normal. Fico sabendo agora que vai haver um plebiscito para saber se o prefeito derruba ou não derruba o monstrengo. Plebiscito. O que é isso? Me pergunto, como o velho do conto de Artur Azevedo. Não sei. Não irei ao dicionário. Não se falou em "impeachment" há alguns anos e assim ficou? Talvez hoje esteja até na Constituição, assim em língua estrangeira mesmo. Não estão chamando a reforma obrigatória por decreto-lei de "acordo"? Alguém foi plebiscitado a respeito? Claro que não. Então, como no velho samba do Ataulfo, que ninguém gravou (vide "Rio Antigo" com a Alcione), vão chutar os tinfla.

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