Ivan lessa: O mundo (ou o carteiro) marcha

Meu carteiro mudou a hora de entregar cartas. Era lá pelas 9 da manhã.

BBC Brasil |

Passou para meio-dia. Ou por aí. E isso agora que há uma só entrega por dia.

Sou do tempo em que Londres tinha 3 entregas diárias. Vou logo explicando que nada espero de urgente dos correios. As contas de sempre, agora cada vez mais altas, alguns cartões postais pois há gente que considera deselegante desejar boas vestas virtuais, as revistas que assino. Meu carteiro é feito o pombo da piada: os dias andam tão bonitos que ele vem numa boa, curtindo.

A história toda não é bem assim e vem ocupando um espaço razoável nos jornais. O Royal Mail, ou os Reais Correios, chegaram à conclusão, após uma série de estudos, que a rapaziada boa da entrega de cartas, cartões, embrulhos, o que for, anda meio sobre o devagar. Literalmente.

Cito os dados que os correios citam: a força de trabalho anda puxando seu carrinho (aliás com 4 rodas e bem feitinho de corpo) a uma velocidade inferior à desejada. Especifícamente, as autoridades postais acreditam que o ritmo da marcha de um carteiro deva ser de 4 milhas, ou 6.43 km/h, e não as atuais 2 milhas, ou 3.2 km/h hora.

Carteiros e carteiras, que as há, ficaram fulos da vida. Argumentam que o ritmo que imprimem ao seu trabalho é não só plausível mas também o desejável. Um alto funcionário dos correios britânicos apontou para o exemplo dado por Alun Vaughan, do País de Gales. Alun Vaughan, que compete em competições profissionais e amadoras, consegue a marcha, e não corrida, de 12 milhas por hora, ou 19.4 km/h. Inclusive empurrando carrinho cheio de cartas, ao que parece. Ora, raciocinaram as autoridades postais, por que é então que na hora do batente ele cisma de ficar na, para eles, lentíssima marca dos tais 3.2 km/h?
Há rumores de greve no ar.

Não cedendo um centímetro de sua posição, a direção postal apontou para as velocidade obtidas pelos correios do Continente Europeu. Sempre que dá bolo, há alguém apontando para equivalentes da União Européia. Citaram como exemplo os bravos e céleres carteiros belgas que distribuem sua cartarada à impressionante velocidade de 2.4 milhas por hora, ou 3.8 km/h. Com carrinho e tudo. São os chamados "relâmpagos belgas".

Aí começa todo mundo a dar palpite. Com ou sem carta a entregar ou receber. Médicos e leigos afirmam que andar é muito bom para as pessoas. Redescobre-se, pois, novamente, a proverbial pólvora. Andar é prolongar a vida, é distribuir saúde pelo corpo inteiro, do cérebro às pernas, passando pelos importantíssimos pulmões.

Filmes já vistos. Que sempre me lembram que o inventor do popular "jogging" morreu praticando sua bolação no Central Park de Nova York. Fico, pois, em casa, à espera da entrega, ao menos numa hora razoável, da correspondência. Dolorosa, desinteressante ou indiferente. Tudo material a ser reciclado.

No meio dessa história toda, a única coisa que me chamou mesmo a atenção foi o fato de que em Cingapura, no curto espaço de 11 anos, a produtividade dos carteiros aumentou em 58%, passando dos 1.842 itens entregues por dia anteriormente a um brilhante total de 2.905 itens em 2006. Mandar e receber cartas é em Cingapura.

Como os jornais têm que encher espaço, entre um e outro anúncio de sugestões para presentes natalinos, deram-se ao trabalho de publicar "boxes" e retrancas com recordes e fotos coloridas de corredores e carteiros em ação. Lá está o galês Alun Vaughan (aliás meio gordote) que só corre em competição. Lá está também, não sei porquê, Haile Gebrselassie, atleta detentor do recorde para a maratona mundial com suas 12.63 milhas por hora ou 20.32 km/h.

Com imensa satisfação e orgulho, ouso dizer, descobri que na lista dos cidadãos do mundo que mais rápido caminham, para distribuir cartas ou ir pegar um picolé na esquina, os nossos queridos curitibanos estão num 6º mais que honroso lugar, já que levam apenas 11.3 segundos para percorrer uma distância de 60 pés, ou seja 18.28 honrados metros paranaenses. Ganhando, pois, dos alemães, norte-americanos, holandeses, vienenses, poloneses e, claro, os ingleses.

Avante, curitibanos! Eia! Avante! Sus!

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