Ivan Lessa - O Livro da face: um sucessão

Finalmente! Pensei que não fosse viver para presenciar este dia! Mas está lá, em letras chamejantes, no jornal grátis distribuído no metrô (o Metro) e que alguém deixou na cadeirinha para uma pessoa só, a única que uso. Prefiro viajar de pé a estar sentado a menos de 50cm de um desconhecido ou desconhecida.

BBC Brasil |

Não quero intimidade com ninguém. Isto está intimamente à notícia de duas colunas que li avidamente entre as estações de Westminster e Embankment.

A manchete de quatro linhas dizia tudo. Traduzo capengando e botando os bofes para fora, como é de meu feitio há quase dez anos (enfisema, ou dispneia, três maços de cigarro por dia durante 50 anos): "Facebook finalmente no lucro com 300 milhões de usuários".

Lucro graças a 300 milhões de imbecis. Depois falam mal de banqueiro e corretor de ações. Quem diria... Neste fim de vida, pouco interessado em tanta coisa, com apenas desprazeres e, por que mentir?, ódios mesquinhos que me envenenam a vida e a alma (mulher sorrindo na rua e palrando no celular, americano falando alto, jovens andando de bicicleta na calçada e por aí vai) a cada dia que passa. Envelhecer envilecendo é uma forma superior de crítica.

Parei de colecionar, por ordem, figurinha, livro de sacanagem, mulher de amigo e disco de cantor americano morto. Tenho, no entanto, minhas pinimbas e birras, para não me flagelar mais diante de gente que não conheço e com quem não quero intimidade (vocês) confessando que cultivos ódios.

Gosto de mexer no computador. Principalmente quando ele está funcionando. Vejo filmezinhos no YouTube, procuro coisas antigas, gentes falecidas, definições, restos e frangalhos do que os outros sabem e eu não tinha a menor ideia do que se tratava ao molhar os pés calejados nas águas revoltas, cheias de correntes ocultas perigosíssimas, dos blogs, ou blogues, dependendo de que volume da reforma ortográfica fomos obrigados, eu e vocês, a adotar.

Nunca entendi a razão de ser dos chamados websites de relacionamento social. Para mim é coisa feito aquela moça de sorriso alvar falando ao, no e para o celular, sem saber que está e sempre estará só, só, só neste mundo de Deus. Sem nada de importante para dizer, sem nada de inteligente para ouvir. Celular algum resolverá o seu problema e é mais fácil meus pulmões ganharem vida nova do que elas saberem o que é e como funciona a companhia física de outrem ao lado, ao vivo. Qualquer outrem.

O Facebook sempre me pareceu particularmente tolo. Relacionamento social. Isso a gente resolvia no botequim ou nas festinhas íntimas beirando o sexo grupal. Relacionamento social, tráfego de visitantes. Esse troço pega. Feito sarampo ou gripe suína.

E dá em besteira. Ainda agorinha mesmo, aqui no Reino Unido, um caso hediondo de pedofilia teve suas origens no livrão virtual que tanto pegou. Tanto pegou - e volto triste ao meu metrô e ao jornaleco que lá me deixaram - que acaba de ser anunciado que os usuários dessa bobageira chegaram ao glorioso patamar dos 300 milhões e o palermão que bolou o esquema empulhador (Mark Zuckerberg. Procurem ver uma foto do bichão na aba de imagens do Google. Uau, sô!) está, finalmente, no lucro, já que antes ele não passava de vaidoso CEO, como se diz no Brasil, do Livro da Face (ou do Rosto, da Cara etc.) por simples amor, ignorância e absoluta falta do que fazer.

O Livro da Face deverá aumentar em 70% ainda este ano. Os dias que me restam, e sou grato, diminuirão em 75%.

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