Ivan Lessa: O gostoso mundo da política brasileira

Sexta-feira é o dia em que vai para as bancas The Economist , a prestigiosa publicação - o título diz tudo - britânica, há tempos editada também nos Estados Unidos do Norte. Na sexta-feira, 13, como o Jason da série daqueles filmes de terror, corri para o jornaleiro onde deixara reservado o pedido para me guardarem um exemplar.

BBC Brasil |

O leitor que me conhece se espantará. "Uai!", dirá ele, sempre um mineiro ou paulista, "Mas com que então esse pascácio lá se interessa ou pode entender alguma coisa de economia? Essa não!" Os cães ladram e a caravana se encaminha para o jornaleiro em busca do Economist
.

Lá estava o exemplar. Sôfrego, na esquina, abri ali mesmo a revista, causando forte impressão entre os passantes, e corri para a seção de cartas. Queria ser um dos primeiros a ler a resposta do poeta e acadêmico José Sarney à publicação especializadíssima.

Como?
Recuemos no tempo. Adotando o jargão cinematográfico, vamos de flashback da situação.

The Economist
, em sua edição de 6 de fevereiro, publicara uma reportagem de bom tamanho sobre José Sarney e sua jornada no mundo da política. O título da matéria já dava uma idéia do conteúdo: Where dinosaurs still roam
, ou seja, em bom português maranhense, "Onde os dinossauros ainda vagam".

Para os jornalistas da Economist
, a eleição de José Sarney para a presidência do Senado, naquela semana, representava "uma vitória para o semifeudalismo". Não tocaram - uma pena - no consistente passado político de Sarney e o número de vezes em que foi eleito - ou escolhido pelos fados, maridos das fadas - para altos cargos políticos. Não fizeram sequer menção a "Um presidente por acaso", título de chanchada italiana que bem poderia resumir a vez em que o hoje laureado poeta, acadêmico e coisa e tal, chegou ao posto mais alto dentro daquilo que, sem ironia, chamam de "hierarquia política" brasileira.

No tal artigo, menciona-se que "Sarney pode parecer um regresso a uma era de políticas semifeudais que ainda prevalecem em alguns cantos do Brasil e puxam o resto dele para trás. Mas, com o apoio tácito de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente de centro-esquerda do país, ele foi escolhido esta semana para presidir o Senado."
E prossegue o texto enumerando mazelas maranhenses: que "o centro de São Luís está decrépito, as ruas cheias de buracos e a cidade conta com um número extraordinário de flanelinhas. Só em janeiro, houve 38 assassinatos na cidade de 1 milhão de habitantes".

Tem mais: no interior do Estado o atraso é mais evidente, e cita o exemplo de Sangue, onde muitas pessoas vivem em casas de um só cômodo, cujo telhado é feito de palmeira e que não têm nem água nem eletricidade. Os avanços educacionais do Estado são ruins. Sua taxa de mortalidade infantil, de 39 por mil nascidos é 60% mais alto do que a média brasileira.

Frise-se: tudo palavras da Economist
. Esgotei minha cota de aspas. Mencionam o fato de que o controle da família Sarney no Maranhão é reforçado por ser ela ser proprietária de uma estação repetidora da Rede Globo e que, no meio das novelas, costuma exibir reportagens favoráveis ao clã.

The Economist
, seguramente, ainda não estava a par das mordomias dos novos presidentes da Câmara dos Deputados, Michel Temer (não pegou a edição em questão) e do Senado, o referidíssimo José Sarney. Encontrei-as, muito de passagem, pois logo sumiram, num jornal brasileiro, O Globo
. Enumero resumindo: juntos os recém-eleitos presidentes terão 58 cargos de confiança, considerando apenas os gabinetes da Presidência, com salários que chegam a R$ 9,8 mil. Além disso, cada um tem direito a residência oficial com piscina e empregados, mais viagens para seu Estado e carro com motorista.

O senador José Sarney terá no gabinete da Presidência 17 cargos de confiança, com salários de R$ 9 mil; seis secretários parlamentares com salários de R$ 7,65 mil; um secretário de imprensa, um chefe de cerimonial, um chefe de gabinete, um chefe de relações institucionais e um secretário de relações internacionais, todos com salários de R$ 9,8 mil. Os vencimentos mensais da serventia somam R$ 148,9 mil.

As mudanças já entraram em vigor. Não pegaram a edição do Economist
. Mal pegaram qualquer edição de qualquer coisa no Brasil.

Li, no entanto, na semana passada, num jornal carioca cujo nome foge à memória de todo mundo, que Sarney estava preparando uma carta em resposta às acusações (acusações?) da revista.

Daí meu interesse pelo exemplar de sexta, 13 de fevereiro, véspera do Dia dos Namorados aqui.

Volto à minha esquina. Seção de cartas. Nada de Sarney. Deve ter faltado verba para lápis, caneta Bic ou computador.

Em compensação, na capa da revista Vogue
, em plena Obamania, lá está Michelle Obama, muito satisfeita da vida, incontrovertida, posando para a câmara, digo, câmera, de Annie Leibowitz. Trata-se apenas da segunda primeira-dama a merecer tal honra. A outra foi Hillary Clinton.

A Vogue
não adianta as mordomias de Michelle.

Sirvam-se.

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