Ivan Lessa: O feijão é o sonho

Sorte deu meu pai de não me pegar fazendo gracinha com o nome de um romance dele razoavelmente conhecido. Pegou prêmio no fim dos anos 30, virou clichê jornalístico (cada vez que aumentava seu preço, lá vinha uma notícia, O feijão é o sonho, feito o título destas linhas) e, suprema glória, virou telenovela das 6 na Rede Globo.

BBC Brasil |

O Lessa (compartilhamos do mesmo sobrenome) detestava os chistes com o livro, por sinal, e não é por eu ser filho do autor, não é nada mau. Dêem uma conferida.

Cá estou, no entanto, passado tanto tempo, sonhando com o precioso (feito em "preciosa rubiácea") e popular legume que deu origem a quase tantas expressões populares quanto modos de prepará-lo e servi-lo. Confesso ainda que morro de saudade de um feijãozinho. Que aí foi no diminutivo por uma questão de carinhosa gula.

Os feijões que aqui feijoam não feijoam como lá. Ou aí. Dão para quebrar o galho na hora de se tentar uma feijoada. Em geral, são mexicanos, chamados "porotos negros", como se fossem rumbeiros, ou nigerianos, apelidados carinhosamente, creio, de "krig-ha bandolo", em homenagem ao Tarzan das HQ. As carnes é bom nem querer saber de sua proveniência e o arroz não tem por onde: basmati, indiano.

Quanto à caipirinha antes, durante e depois, tudo bem. Essa se universalizou. Limão, açúcar, cachaça, gelo, tudo encontrado em qualquer lugar. Basta perguntar a qualquer brasileiro na rua ou no metrô que ele lhe dará as dicas necessárias. Três caipirinhas na cuca e você pouco ligará para a (risos) "feijoada" (valem as aspas).

Fico sabendo, pelas folhas brasileiras via internet, que nosso Ministério da Saúde divulgou o espantoso dado: brasileiro anda comendo menos feijão. Consomem frutas e hortaliças, mas comem menos feijão. Em 2006, o legume rico em proteína e fibras, esteve presente na mesa de 71,9% da população, com apenas 65,8% em 2009. O que considero chocante. Beirando o desaforo. Tudo bem com consumir mais frutas. Somos bons de frutas. Está aí o açaí a correr com sucesso o mundo. Nada mais justo. Quanto às hortaliças, isso é pura frescura. Atitude. Coisa de quem foi alagado ou sofreu deslizamentos generalizados.

O intolerável, o inaceitável, é o brasileiro comer menos feijão. Não somos muito ladinos, conforme o resto da América Latina acha e de nós debocha. Agora, deixar de comer feijão, por menor que seja a percentagem, só pode ser ou culpa do governo ou dos novos restaurantes metidos a besta que só vivem para pegar estrela no Guia Michelin. Vão todos ao feijão, minha gente! Prestigiamo-lo, que ele merece. Está em nossa sopa genética, faz parte de nosso perfil demo-gastronômico e o linguajar popular já o consagrou, juntamente com a mulata do Lamartine Babo. Pensem bem.

"Esse cara vai ter que comer muito feijão até querer se meter comigo."
Ou:
"O canard à l'orange era o feijão com arroz de Campos "Poesia" Lara, o conhecido bicheiro e traficante do Borel."
E ainda:
"Cremilda, bota água no feijão que chegou mais um!"
Não vamos nos esquecer que o feijão comum - esse que está partindo para o incomum -, cultivado em todo território nacional, leva o nome de Phaseolus vulgaris em latim, língua morta das mais vivas. Não se impressionem com esse vulgaris aí. Deixem de ser metidos a besta. Comam feijão enquanto o feijão não nos coma. Não façam com ele o que a ditadura fez com o Palácio Monroe. Parem de pensar em bobagem e todos ao feijão, que ele, como o pré-sal, será nossa salvação.

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