Ivan Lessa: O fascinante mundo da autoridade

O prefeito de Londres chama-se Boris Johnson. Trata-se de figurinha difícil.

BBC Brasil |

Parece um Old English Sheepdog (googlar), bons colégios em sua formação, chegado a bizarrices, como manda o figurino em que moldou sua personalidade: um daqueles tipos "bem" que ilustravam velhos cartuns na falecida revista Punch.

Tudo que ele faz ou diz acaba virando notícia. Curiosamente, não é nocivo à cidade. Ao contrário de tanta prefeitarada. Dá-lhe, inclusive, um ar antigão há muito desaparecido. Não é um sopro de vida nova. Muito mais um daqueles fogs que não existem mais.

Boris - e a intimidade, bom sinal, vem com naturalidade - está às voltas com uma nova experiência. Com o apoio financeiro da loteria esportiva nacional, pretende espalhar 31 pianos em pontos estratégicos da capital. O objetivo é encorajar as pessoas à prática dos tradicionais singsongs.

Um singsong é exatamente isso. Gente cantando canções. Tradicionais ou não. Em torno de um instrumento musical. Na mente de Boris, os estranhos, as pessoas que não se conhecem, são os principais objetivos da iniciativa musical. Na loira (eu só o chamo, na intimidade de meus silêncios, de "louro incendiário") e despenteada cabeça do prefeito, nada como entoar juntos uma musiquinha para aproximar as pessoas.

Por outro lado, basta pensar no horror que deve ser a vida conjugal do terrível casal Elvis Costello e Diana Krall. Terá a odisseia do mal que é o casamento dos dois começado com um singsong? Possível, possível.

Por favor, quem me conhece um pouco, e minha preferência pelo jazz vocal, não estranhe minha ojeriza à queixudíssima belcantante com cara de camelo, Diana Krall. A moça faz tudo para imitar uma cantora de orientação jazzística. Só que não passa no teste básico. Experimente aí acompanhar com batida do pé ou estalar dos dedos da qualquer clássico da música popular (ela acaba de desfechar um ataque à bossa nova) e repare como não dá, mas não dá mesmo. Ela não tem a menor noção de ritmo, de batida. Atravessa, semitona.

Encerrado o chato e doloroso parágrafo acima, volto aos pianos planejados para Londres pelo prefeito Boris Johnson. Ele quer espalhar os 31 instrumentos que são um mistério para Diana Krall em locais óbvios como a Biblioteca Britânica, o Museu Britânico, o Banco da Inglaterra além de inúmeros museus e praças públicas. Cada piano decorado por um artista segundo o tema de sua localização. Talvez um urso empalhado em cima de um piano de cauda na porta do Museu de História Natural. E assim por diante.

Sim, é uma idiotice. Mas não vai fazer mal a ninguém nem ofender os turistas. Precisarão, apenas, de proteção, sem dúvida. Esta Londres multicultural e globalizada de hoje é um perigo, gente.

Veremos e ouviremos a bobagem que vai dar. Basta não dar acesso à empreitada ao casal Elvis Costello-Diana Kral que já será um progresso.

Passo agora, com a maior naturalidade, ao outro lado do Atlântico. Para aí mesmo, Brasil, onde prossigo com minha malévola campanha de acompanhar o que por aí se passa. Principalmente no Rio de Janeiro.

Vejo, agora, nos jornais, que publicam com sua habitual discrição as oficialidades oficiais, que entrou em vigor no Rio a lei que proíbe mulheres de biquíni em cartões postais. Nossas esculturais bundudas (sem essa pudicícia de "popozudas") foram serenamente eliminadas dos cartões postais em exposição e venda nas bancas de jornal ou estabelecimento comercial.

Qualquer infração sofrerá multa de R$ 968 e, no caso de reincidência, R$ 1.937,20. O governador do Estado sancionou a lei já publicada no Diário Oficial, tornando realidade um velho sonho moralizante da ex-governadora Rosinha Garotinho e da deputada estadual Alice Tamborideguy (PSDB), principal responsável pela atual adoção da medida moralizadora, declarou o seguinte: "A gente tem tanta praia bonita, tanta paisagem, porque precisa haver mulher em traje sumário nesses cartões?"
Só a prece e o amor vos salvarão, irmãos.

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