Ivan Lessa: O escândalo da corrupção

Corrupção em Westminster. Todo dia fazendo manchete.

BBC Brasil |

A Câmara, na sexta-feira, chegou a ser chamada de "casa de maus costumes", ou seja - isso mesmo - casa de tolerância. Para ser mais delicado: "malversação de verbas de gabinetes e auxílios parlamentares", conforme a Folha de São Paulo colocou a coisa em linguagem eufemista que faria Shakespeare se roer de inveja.

Gente que não acaba mais se aproveitando da chamada ajuda de moradia a que os parlamentares que não moram em Londres têm direito. Gente mentindo que estava pagando hipoteca, quando ela já estava quitada, faturando bonitinho todo santo mês. Gente construindo fosso para sua habitação.

Tudo feito Mate Leão, tudo na base do use e abuse. Despesas parlamentares pagas pelo contribuinte: limpeza de piscina, instalação de lustre, compra de adubo para jardim e já chegou até à suprema baixaria de aluguel de material pornográfico. Escândalo, horror, os sais da condessa, por favor!
A Câmara dos Lordes embarcou nessa. Dois pares do reino, ambos do Partido Trabalhista, arrumaram, de arminho e veludo, sua própria corrupção na chamada Upper House, já batizada por uma população inquieta, irritada e desapontada, de "tutu em troca de mudanças legislativas" (cash for law changes). Pela primeira vez em 400 anos da história da Câmara dos Lordes os dois foram julgados culpados de má conduta. Lorde Truscott vai ser suspenso por seis meses. Lorde Taylor de Blackburn expulso por seis meses. Isso dependendo de uma votação parlamentar nesta semana.

Um deputado do Partido Conservador, ex-ministro adjunto da agricultura, já se demitiu. Corre agora o risco de ser investigado pela polícia especializada em fraudes. Que, torcem muitos, terá muito trabalho pela frente.Todos esses escândalos foram trazidos à tona por um jornal conservador, o Daily Telegraph, que no arrastão acabou levando gente supostamente defensora de suas cores.

A falta de credibilidade política é quase que palpável neste início de primavera. O que, como a população britânica que citei acima, me inquieta, me irrita, me deixa desapontado. Sempre me guiei pelo princípio do falecido cronista Auberon Waugh: é político? Pedra nele. Mais: um editor célebre que aconselhava seus repórteres, sempre que entrevistando um político, a se fazerem a pergunta, "Por que é que esse homem está mentindo para mim?"
Nos quase 40 anos que morei no Brasil, me lembro de pouquíssimos escândalos políticos relacionados à corrupção. Teve uma época, não estou certo, em que se falava da "caixinha do Adhemar", homem que ocupou impunemente diversos cargos públicos. Sempre eleito pelo Zé Povão. Depois... depois é difícil lembrar. Minha memória veste a camisa amarelinha, número 10 nas costas, e como todo mundo já vou me esquecendo da palavra que antecedeu a palavra seguinte em meu acompanhamento internético das idas e vindas das escandalosas coisas e graças ligadas à corrupção nesses Brasis brasileiros.

Tomo meu guaraná importado de Portugal, passeio pelos sítios cibernéticos na língua de Ademar Lyra Tavares e vou levando. Levando e esquecendo. Esquecendo e levando.

A ver agora se os britânicos se deixaram multiculturalizar ao ponto do esquecimento. Política aqui sempre foi posto de sacrifício. Deixou de sê-lo, ao que tudo indica. Que fique ao menos a boa memória que os cidadãos daqui juram que têm.

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