Ivan Lessa: O brado retumbante da saudade

As poucas pessoas com quem me dou criticam constantemente meu saudosismo. Você vive num passado que nunca existiu, cochicham ou bradam-me elas.

BBC Brasil |

Mesmo as muitas pessoas que não me conhecem, mas ouviram falar da história, mandam-me e-mails, cartas anônimas e, quando me reconhecem nas ruas, fazem cara feia ou debocham em voz alta. "Passadista! Passadista!", troçam eles.

Tentando aparentar serenidade, sigo pelos poucos caminhos que trilho em Londres no meu passo trôpego, tentando me lembrar da escalação do Botafogo em 1949. Ou então do nome do ministro da Justiça do governo de Harold Wilson, em 1968, quando aqui cheguei pela primeira vez.

Sim, é verdade. Volto-me para um passado que açambarca continentes, que não conhece fronteiras - no tempo ou no espaço. Curioso. A humanidade, ou pelo menos sua porção que me toca, é profundamente injusta em sua condenação e seu deboche. Tivesse eu um mestrado de história da cultura popular brasileira e talvez já estivesse de farda e espadinha na Academia Brasileira de Letras reformando não só o português do Brasil, como o espanhol da Argentina, da Bolívia, do Peru, da Venezuela. A imortalidade acadêmica não conhece fronteiras.

Aqui peço licença para uma pitada de noticiário atual, só para fintar meus críticos e mostrar que sou homem de nossos tempos também: sabiam que corre em Portugal um abaixo-assinado com cerca de 130 mil nomes? Que eu saiba, ninguém desse berço esplêndido sequer chiou, ou mesmo questionou o estratagema néscio.

Reformem-se, povo que sempre será o meu, mas deixem a língua de quem a inventou em paz. Isso deve ser, conforme se tornou hábito dizer no Brasil atual, esse que me apraz menos que o Brasil inatual, "tomado em seu valor de face".

Volto à vaca fria e uso a expressão em desuso (recuso-me a escrever "datada", que é coisa de carta ou documento) de propósito para irritar quem me fere com suas observações malévolas."Mooo!" exclamou a vaca fria. Era inglesa. De Devon.

Enfim, noto pelo noticiário recente - e eis um tapa com luva de pelica em meus inimigos: eu acompanho até onde posso o que se passa no país que só abandonei de corpo - noto, começava a dizer eu, que o país, ou, até onde sei, a parte que dele mais me é cara, o Rio de Janeiro, vive, revive, melhor dizendo, uma volta nostálgica ao passado. Parabéns, Brasil! É isso aí, Rio! Viva a ressurreição de Mãe Gentil, vivam os seios fartos da Liberdade!
Por quê?
Porque o Hino Nacional voltou a ser obrigatório nas escolas municipais da cidade e do Estado. Já deu no Diário Oficial. O que prova tratar-se de nota batatolina. A resolução foi assinada, e em letra caprichada, acredito, pela secretária de Educação, Cláudia Costin.

O texto menciona a "necessidade de resgatar e despertar no aluno valores cívicos". A resolução prevê ainda que, durante a solenidade, deverão ser hasteadas as bandeiras nacional, do estado e do município. (Ah, ser proprietário de uma fábrica de lábaros estrelados no Rio de hoje!) A educação cívica, assim como o bolero "Errei, sim", na voz de Dalva de Oliveira, volta a atacar.

A coisa repercutiu bem. Tanto é que há um projeto de lei (número 4.627/09, leão, se não me engano) tramando, digo, tramitando, e que define ainda outras ocasiões em que o hino deverá ser executado, como na abertura de sessões cívicas e no início e encerramento de transmissões diárias das emissoras de rádio e televisão.

Conheceram, papudos? Papudo que debocham de meu "passadismo". Não há passadismos. Apenas um eterno retorno nietzcheano. Tomaram? Digo isso como bom filho que fui do Estado Novo de Getúlio "Gegê" Vargas.

Perfilei no colégio, cantei os hinos obrigatórios, pus a mão no coração quando hastearam bandeiras, sentei nos botequins e comprei broa de milho nos armazéns sempre diante do olhar sereno de "Rebeco, o Inesquecível", como foi chamado por uns tempos, nos retratos - obrigatórios sempre, cívicos a mais não poder - daquele que também foi "O Velho" do samba queremista (aos compêndios, amigos e inimigos) gravado com grande sucesso pelo grande Chico Alves.

Força máxima ao hino que, este ano, estará apagando cem velinhas em seu cívico bolo de "niver". Saibam ainda, chusma de ignorantes críticos meus, que o Hino Nacional já teve duas versões. A letra escrita por Osório Duque Estrada foi grandemente apreciada em 1909, quando, aí sim, sabiam das coisas. Um povo heroico não se amedrontava diante de brados retumbantes ou raios fúlgidos e como que se banhava o tempo todo em margens plácidas - do Ypiranga (abaixo todas as reformas ortográficas!) à Praia de Ramos.

Vira e mexe, o passado, como o futuro do Hino, espelha grandezas e sempre dá um jeito de nos pegar distraído. Revogam-se as disposições em contrário.

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