Ivan Lessa: Muitas listas, um prêmio

Não sei o que é mais chato nesta época do ano. Sei que há chatices para todos os mal-humorados feitos eu.

BBC Brasil |

As senhoras com seus embrulhos na rua e na condução. As festinhas de escritório. Aqueles camaradas de pilequinho, ou pilecão (em geral, o vinho é ruim e forte), que deixam essas festinhas e vão para o primeiro pub que encontrarem aberto para encherem as medidas dos presentes falando alto e cantando músicas sazonais à época.

As pessoas que batem à nossa porta com uma cara triste pedindo uma contribuição para o Natal dos destituídos do bairro. As crianças forçadas pelos professores a ficarem na esquina assassinando Jingle Bells, White Christmas e Winter Wonderland. Árvores e mais árvores de Natal. Comerciais e mais comerciais na televisão. Em geral de perfume ou água de colônia. A lista é grande.

E por falar em lista. Não se pode abrir um jornal sem dar de cara com listas. Celebridades a listarem. Editores a listarem. Anônimos a listarem. Leitores assíduos a mandarem cartas listando. Este ano é ainda pior que os outros. Fim de década. Em consequência, além das listas dos melhores ou piores do ano, sobra espaço para listas relativas à década. Seu marcos e até mesmo como chamá-la. Se noughties (de nought, nada) ou aughties (de aught, nada também).

E por falar, agora, em nada. Nem vou nem pensar em fazer graça. Fazer graça é o que os colunistas estão fazendo força para fazer. Em vão. Dos colunistas que leio habitualmente, já flagrei uns três ou quatro tentando dar a volta por cima mexendo com as listagens natalinas. Neles peguei cutucadas em supostas listas tais como "Dez Maneiras para Evitar o Estresse de Fim de Ano", "25 Idiotas a se Ficar de Olho em 2010", "Os 100 Melhores Filmes a Serem Vistos Antes de se Morrer". A avalanche de presepadas despenca arrasando presépios.

Resenhas do ano. Alguém quer mesmo se lembrar das chatices infindáveis que se sucederam em 2009? E nem vou mencionar os horrores. Se me dessem ao menos o que houve e o que não houve em 1909 talvez eu me interessasse mais.

O Times publica invariavelmente os nomes mais populares de bebês nascidos neste ano que começa a apagar suas próprias luzes. Deu Holly, ou Hollie, e Isabel ou Isabella entre as meninas, e Lucas e Dylan, entre os meninos. Se eu fiquei sabendo, quem me lê também acabou de ser forçado a ficar sabendo. Eu, como Ringo e Django, não perdoo. Sou um homem que não usa gravata, nunca se vestiu de Papai Noel e procura emular o misantropo personagem Ebenezer Scrooge, uma das muitas criações imortais de Charles Dickens. As outras foram... Não, não cairei nessa que armei para mim mesmo. Não farei listas que alguma rena transviada do bom velhinho criado pela Coca-cola (sim, claro, Papai Noel) me force a fazer. Não acredito nessas coisas.

Há uma lista anual que acompanho com um vago (muito vago) interesse. Tem a ver com livro, entre os quais encontrei amigos. Trata-se do prêmio oferecido anualmente pela revista Literary Review, da qual sou assinante e admirador, ao pior trecho literário que descreva o ato do amor. Chamam, com propriedade e sem farofa, de Bad Sex Prize.

Tenho a certeza de que já falei disso em outros anos. Desta vez, limito-me a dar o nome dos principais concorrentes sem citar suas travessuras com Cupido, já que estamos em um site família. Saliento que só concorrem ao pouco cobiçado prêmio de escrever mal sobre sexo quem tiver alguma reputação literária a zelar.

Presentes este ano, Philip Roth, Amos Oz, John Banville e o roqueiro e ficcionista Nick Cave, aquele de cara longa, sobrancelha espessa e expressão assustadora. Lembro que entre vencedores anteriores já tivemos Martin Amis, Norman Mailer e John Updike, sendo que este último recebeu o equivalente a um daqueles Oscar por conjunto de obra pouco antes de morrer e parar, assim, por completo, de escrever, bem ou mal.

Rememoro, para finalizar, que a honraria foi criada em 1993 pelo também já falecido Auberon Waugh, filho do esplêndido Evelyn Waugh, que, de certa feita, escreveu, vivo que era, ser totalmente impossível descrever literariamente o ato sexual sem, e adapto com a maior liberdade, mas sendo fiel ao espírito do dito, "quebrar a cara". Waugh pai sabia das coisas. Inclusive nunca foi nessa de listas.

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