Ivan Lessa: Minorias vitoriosas

As vitórias importantes são dadas como trivial ligeiro. Derrotas é que são o quente.

BBC Brasil |

Essas pegam espaço. Vendem.

Destaco duas conquistas que mal foram destacadas pelos meios de comunicação, locais ou otherwise, conforme se diz no Brasil após a reforma. Que reforma? Todas. Vive-se aí sob o signo da reforma e as pessoas, mesmo as bem informadas, insistem em fazer vista grossa e ouvidos de mercador, para usar de dois lugares-comuns que todos entendem e estão na bica de serem reformados.

Comecemos por baixo. Pelos baixinhos.

É, os de pouca estatura refletindo sua pouca idade. Isso mesmo. Criança.

Deverá chegar aqui, ainda este ano, o novo celular já em ação e radiação (espalhem, espalhem) na Irlanda, cognominado (irlandês vive cognominando tudo) The Firefly, ou seja, O Vagalume. O danado esse destina-se às gentes de quatro anos de idade. Mental e física.

O Vagalume tem apenas cinco botões. Dois são para emergências: chamar o papai e a mamãe. O que é uma imensa tolice. Basta berrar por eles, pomba!
Os outros três botões não ficou claro a que se destinam. Ao menos para mim, ferrenho anti-celularista desde as HQ de Dick Tracy, nas décadas de 30 e 40. Eu dou um doce (para ficar nas décadas citadas) a quem me explicar o que uma criança de quatro anos pode fazer com um celular, a não ser enfiar o maldito engenho no nariz, ou botar na boca e morrer de celularose na faringe. Depois reclamam dos brinquedos fabricados na China.

Eu e você, apesar de brasileiros, sabemos que é impossível conduzir uma conversação mesmo indigente com uma "pessoinha" de quatro anos. Elas nada têm de interessante a dizer. São completamente destituídas de qualquer informação, útil ou inútil, e nunca que vão querer desligar o Vagalume.

Resumindo: as gentinhas â¿ e não estou menosprezando â¿ de quatro anos já dão bastante trabalho sendo do que jeito que são. Desnecessário complicar as coisas, fornecendo agora, inclusive, os meios (nunca se sabe) de se organizarem.

À outra vitória, igualmente dúbia:
Agora, em fins de junho, as mulheres venezianas romperam com uma tradição de 900 anos e conseguiram o direito de serem, elas também, gondoleiros. Gondoleiras, para ser preciso.

Pois é. Você aí, viajado, um verdadeiro globetrotter, passou por certo em Veneza, a Recife italiana, viu os pombos na praça São Marcos, usou de expressão compenetrada nos museus e nas igrejas, talvez tenha até singrado aqueles canais pouco sãos, e nunca reparou: era tudo gondoleiro.

De camisa listrada, chapéu de palha com fitinha, mas masculinos, si signore. Acabou a sopa, finito é o minestrone.

Depois das autoridades locais terem introduzido, em 2007, um curso de navegação de gôndola, só para mulheres, as formandas agora formam fila para se lançarem às águas mansas da Serenissima para conduzir turistas tolos e sem graça. As gondoleiras, se forem muito, mas muito sem caráter, poderão ainda cantarolar aos berros O Sole Mio, Cuore Ingrato e outros clássicos da canção italiana do sul do país e que nada têm a ver com a cidade.

A primeirona a navegar a lendária embarcação chama-se Giorgia Boscolo, tem 23 anos, é mãe de dois filhos e, depois do esfalfante curso de 400 horas, declarou-se feliz e orgulhosa de participar dos quadros gondoláveis. Segundo ela, levar adiante uma gôndola é sopa perto de parir uma criança.

Um gondoleiro que se encontrava nas cercanias fez uma cara séria. Mais tarde, confidenciou a um amigo: "Agora, só me resta alistar-me na Legião estrangeira."

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