Ivan Lessa: Memoriais virtuais

Os cemitérios nunca fizeram parte de minhas excursões turísticas. Não fui, aqui em Londres, ao cemitério de Highgate para ver, por exemplo, o mais famoso e visitado de seus túmulos, o de Karl Marx.

BBC Brasil |

Nem me ocorreu passear com expressão séria e meditativa pelas suas áleas em busca de outros mortos famosos.

Em Paris, também não dei uma chegada ao Père Lachaise para considerar nossa humana mortalidade diante das campas do roqueiro Jim Morrison ou do esteta Oscar Wilde. Sei que me sentiria um intruso e passaria o tempo todo pensando em como eu deveria estar violando, de alguma forma, os outros visitantes, genuínos, que ali foram, tal como deve ser, passar alguns momentos, deixar algumas flores, dedicar alguns pensamentos aos seus entes queridos que se foram.

Sublinho, friso e enfatizo que não estou sendo irônico. A ironia, especialmente para nós, brasileiros, é uma arma mortífera, a bem dizer, uma arma mortífera suicida. Há que se evitá-la como um passeio mesmo de helicóptero ao Morro dos Macacos.

Sem ironia, portanto, acho que andei por umas três ou quatro coluninhas seguidas falando de casos e coisas internéticas. Continuo digitando na mesma tecla, como um computador enguiçado.

Hoje divulgo a mais recente notícia informática a me despertar a quase sempre morosa atenção. Há mais de um site, ou sítio, como prefiro dizer, dedicado àqueles que querem expressar, em público, sua dor pela passagem desta para melhor de entes queridos, sejam esses de natureza pessoal ou as sempre em moda celebridades.

Em inglês, são memorial websites. Sítios virtuais dedicados à memória, a lembrança, às sentidas e comovidas comemorações. Até que nos deixou Diana, a princesa de Gales, a forma encontrada pelas pessoas que sentiram fundo na alma a tragédia de sua morte foi a de deixar, pelas praças e ruas, flores, retratos emoldurados, faixas e cartazes com inscrições e um vasto número de bichinhos de pelúcia.

Muito bem, cada um sabe de si. Sabe do que sente por quem acabou de partir para sempre. Agora, com a informática, surgiram os memoriais virtuais, que mencionei há pouco.

Como tudo que diz respeito à internet, a proliferação de sítios e de visitantes é um espanto. Ainda há pouco, quando duas mocinhas do norte, em misterioso e dramático pacto de morte, se atiraram de mãos dadas de uma ponte sobre o rio Clyde, em Glasgow, na Escócia, poucas horas após a divulgação da notícia, um bom número de memoriais virtuais já haviam sido criados.

Os memoriais virtuais são sítios da net onde amigos e parentes dos mortos podem deixar fotos, vídeos, se quiserem, e músicas. Podem, e deixam ainda, suas condolências as pessoas que simplesmente, num gesto de humana solidariedade, resolveram também prestar suas homenagens.

Friends at Rest, Gone Too Soon e Lasting Tribute são apenas três sítios do gênero triste que encontrou seu nicho informatizado. As celebridades mortas surgem neles para que uma gente comovida dê suas impressões. Como se viu nos casos recentes de Michael Jackson e Patrick Swayze.

Há inclusive um sítio comercial, pertencente ao jornal Daily Mail (circulação de quase 2 milhões e 500 mil exemplares), onde se pode prantear o ente querido comprando velas, bancos de jardim e joias, tudo isso personalizado, é claro. Pela módica quantia de uma libra, as pessoas podem deixar uma lembrancinha - virtual é claro - nas suas páginas. Coisas como fotos de ursinhos de pelúcia, bandeiras, pints de cerveja ou gravuras e pinturas de corações.

Sou um internauta devoto confesso. Apesar de tudo, continuo a cultivar a memória de nosso grande, de nosso imenso, Noel Rosa: "Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela." Me bastará.

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