Ivan Lessa: Massacre em LA: 1 morto

Acho que em matéria de histeria coletiva a última que tive ocasião de presenciar, de longe e temeroso, foi a morte de Diana, princesa de Gales. Felizmente, passou o pior e o país, ou grande parte dele, voltou à sua habitual pachorra, com os meios de comunicação prestando contas da falta de prestação de contas e absurdos de malversação de verbas dos senhores parlamentares britânicos.

BBC Brasil |

Diana? Who she? Muitos perguntam.

Leio, tanto na net quanto num jornal "em carne e osso", que a imprensa escrita e televisada anda perdendo ponto adoidada para a informatização.

Adoidada é a palavra-chave. Na quinta-feira, aqui, começou a cobertura da morte de Michael Jackson. Eu disse "cobertura"? Pois disse-o mal.

A morte de Michael Jackson foi o maior massacre mediático dos últimos vinte séculos. Pelo menos do meu posto de urubuservação.

A única comparação possível ao desmando é se Jesus Cristo ressuscitasse, morresse e, no mesmo dia, ressuscitasse de novo, desta vez negro. Possivelmente, Nosso Senhor não teria preenchido tanto espaço nos jornais e na televisão.

Na sexta-feira, aquele que para mim é o melhor telejornal britânico, o Channel Four News, dedicou toda sua edição ao (devem ter dito) "infausto acontecimento".

O noticiário esse vai para o ar todos os dias no mais nobre dos horários, de 7 às 8 da noite. A correspondente deles em Washington, Sarah Smith, deixou Obama e Michelle de lado, e se mandou, ou melhor, foi mandada para Los Angeles afim de ficar na frente de uma multidão dizendo sandices.

E tome depoimento, uma das mais baixas formas de jornalismo para gente sem assunto.

Qualquer pessoa que tenha ido a um concerto do homem, qualquer um que se diga crítico musical, outro que se diz músico e com disco gravado. Vale tudo e todos e nada, rigorosamente nada, de original â¿ ou qualquer coisa que jogasse uma luz sobre a importância do falecido â¿ foi dito.

Nos outros canais, e como há, canais, jornalistas desocupados, com ou sem diploma, enfileiraram besteira, lugar-comum e irrelevâncias. Cumpriram seu salário.

Aqui em Londres, sete jornais, ou mais, compareceram às bancas no sábado com suplementos especiais sobre o "entertainer" desaparecido.

Até o meu "The Guardian", que está na bica de deixar de ser meu jornal, lançou uma edição especial de 8 páginas, coalhada de fotos e artiguetes de seus colaboradores supostamente sérios, dizendo as inevitáveis besteiras, umas sentimentalóides outras apenas debilóides.

Claro que não haveria o que aprofundar no homem. O homem não tinha profundo. Era isso: um "entertainer". O que não tem nada demais. Tudo bem. Vivam os entertainers!
Só que ele, esse que bateu com as dez, insistia em fazer o difícil parecer ainda mais difícil do que é, ao contrário do que Nijinsky, Nureyev, Fred Astaire e Gene Kelly sabiam demais de bem: o negócio é fazer o difícil parecer fácil.

E tomem diagramas em quatro colunas mostrando, passo-a-passo, o "moonwalk" e outras modalidades dançantes do cantor e bailarino.

Por masoquismo, li as colunas dos articulistas normalmente preocupados com o Irã, Iraque, Afeganistão e pilantragens parlamentares. Prestaram-se, serenamente, a participar dos folguedos fúnebres.

Só rasguei e joguei fora quando catei lá uma frase antológica, dessas para botar para sair na horizontal todas as outras frases sobre o febril acontecimento californiano.

Dizia lá o colunista que eu presumia sério: "Ele morreu com mil flechas cravadas no peito."

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