Ivan Lessa: Mais um equinócio

Terça-feira é dia de equinócio de novo. Desta vez, o equinócio de outono, a nos dizer, cá no hemisfério Norte, que é para esquecer o outro equinócio, o equinócio de primavera, que parece ter sido ontem.

BBC Brasil |

Os equinócios são apenas dois por ano, mas parecem muito mais. Eu sempre celebro a passagem - a bem dizer, o momento - dos equinócios. Sei muito bem que equinócio de primavera é quando o Sol passa do hemisfério sul para o hemisfério norte, em 20 ou 21 de abril, é um ponto vernal, para as almas simples. O equinócio desta terça-feira, 22 de setembro, é o equinócio de outono, e o Sol, na sua segunda voltinha anual, passa de norte para sul. Ou de sul para norte. Agora me confundi com meus equinócios. O importante é saber que num equinócio os pontos da órbita terrestre igualam-se em duração.

Eu gosto da palavra. Equinócio. Apraz-me repeti-la. Em voz alta e escrevendo. Se eu tivesse um filho, ou mesmo ou cachorro, chamá-lo-ia de equinócio.

Vem, com os dois equinócios, mudança de hora. Uma para frente, outra para a trás. Dependendo do hemisfério do distinto. Aqui é para trás. Vamos arrancar uma tremenda marcha-a-ré aqui pela Europa. Vocês darão mais um salto na olimpíada do progresso.

Eu prefiro, em língua de "espiquíngres", de chamá-la, a essa estação que logo se segue (ai, que gostosura!) ao equinócio outonal, de Autumn. E com maiúsculas, como o fazem nossos irmãos portugueses com as estações do ano, os meses e os dias da semana.

Os americanos educados também fazem feito eu faço. Dizem Autumn. Veja-se o caso do belíssimo Early Autumn, originalmente um tema escrito por Ralph Burns e Woody Herman, para a orquestra deste último, e que acabou ganhando letra mais do que à altura do esplêndido Johnny Mercer. Aliás, e pouca gente sabe disso, o primeiro a gravar a canção, nesta versão, foi o grande e injustamente olvidado Billy Eckstine, no ano de 1952. São equinócios assim que nos dão sentido à vida, por ele nos guiamos e acertamos - atenção que vem aí tentativa de prosa poética - os ponteiros de nossos corações.

Fall. Muito americano chama de Fall. Talvez porque caem as folhas das árvores. Pouco provável que seja em homenagem ao romance homônimo, La Chute, do extraordinário Albert Camus. Não caio nesse equinócio. Sempre foi e sempre será Autumn, como foi "outono" quando eu morava e, até um certo ponto, vivia no Brasil. Não ganhou nunca caixa alta, apesar de todas as reformas ortográficas que vieram e se foram. Talvez por ser sempre minguado, marcando apenas que vai cair um pouco a temperatura e capaz de rarearem as praias dignas de jacaré e linha de passe.

Apesar de distraídos, nós, cariocas e brasileiros todos, sofríamos o duplo fenômeno dos equinócios. E era como se não o fosse. Mais uma data apenas no calendário mental de umas poucas pessoas mais ilustradas. Nossos dois equinócios anuais não mereciam balão, quentão e fogueira ou baile dos casados com muita mulher coxuda de tarde na boate Texas, no Leme, ou algumas outras igualmente marotas - Tasca, Arpège, Drink.

Pretendo passar o equinócio do começo da semana que vem em casa, com a família, e a gata que não se chama - pois fui tolo e pouco baiano - Equinócia. A me nebulizar duas vezes por dia. Que agora eu dei para isso. Ou melhor, meu clínico geral me recomendou.

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