Ivan Lessa: Mais almanhaque

Outro dia mesmo, em janeiro, eu andei garatujando por aqui uma série de pensamentos de Almanhaque (pequena homenagem ao nosso grande Barão de Itararé), a propósito de um livro sobre a avassaladora ineficácia da obra do desbravador dessa praga de livros de auto-ajuda, o americano Dale Carnegie, que, corria a lenda, fazia amigos e influenciava pessoas. Tamanho foi seu sucesso que 5 (cinco) leitores escreveram-me pedindo mais.

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A leitor dado não se olham os dentes, sentencio eu, acrescentando que, se forem de ouro e de 22 quilates, uma olhadela disfarçada vale, sim, senhor.

Atrelo meu burrico num livro igualmente de auto-ajuda, só que atual. Trata-se de O Segredo, de Rhonda Byrne, que conta, supostamente, 52 anos e é - para vocês verem a ironia, ou, se não verem, tentarem enxergar uma - australiana. Sim, senhor. Aus-tra-li-a-na.

Dona Rhonda Byrne alega que, se adotarmos uma atitude otimista (ouviu, Dale Carnegie?), poderemos atrair tudo que desejarmos. Dinheiro, amor, saúde, sucesso. Tudinho. Inclusive ganhar guerra e acertar na loteca. Acho. Rhonda Byrne alega ter desenterrado uma verdade preservada a nove chaves (exageremos, por uma questão de otimismo) por sábios, filósofos, cientistas e gente de sucesso. Seu livro deixou de ser segredo, ganhou aspas, e vendeu mais de 6 milhões de exemplares em um ano. Em formato de DVD passou de mais de 2 milhões de cópias no mundo inteiro. Babai de inveja, Paulo Coelho, babai!
Usando, como os leitores da autora australiana (!) de sucesso, apenas os poderes de minha mente, enumero a seguir, à maneira de O Segredo, uma série de pensamentos filosóficos positivos, todos eles rigorosamente inventados pela mente malsã deste criado que a vós se dirige. Basta agora atentar para o conteúdo de cada uma das pérolas que colhi no leito convulso de meu subconsciente para auferirem seus benefícios, na saúde, trabalho e relacionamentos. Taquemos, pois, ficha.

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A matéria mais complicada de se resolver é aquela que mais complicações apresentar.

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Recursos morais e mentais são apenas os dentes dos cães que ladram enquanto nossa caravana passa pelas regiões menos desenvolvidas do Afeganistão.

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Todas as pessoas têm um ponto fraco. Em geral, no meio da testa. Quando elas nos aborrecerem, é hora de mandar uma bala lá.

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Cada dia é uma nova revolução em torno do sol ou em paisete da América Latina ou África.

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Comece fazendo o possível. Quando cansar, pare e culpe o companheiro ao lado, que, alegue, não para de lhe dirigir gracejos em termos de baixo calão.

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O dever é uma senha pessoal. A minha, para tirar dinheiro de caixa automática, é 7691. De nada.

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Dinheiro é como eletricidade. Chocante quando em doses moderadas, letal quando aplicado em excesso. Injeção letal é mais humano.

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É melhor ter um cão amado do que amar um soldado com dente de ouro na arcada dentária superior. Viu, Carlos Ronaldo?
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Cleonice de Assis, de Curitiba, no Paraná, rua Carlos Manquitola, 37, fundos, lhe fará feliz. Marcar dia e hora pelo telefone 23 7801 46. Ela não aceita cartão de crédito.

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Para você ter harmonia ou formar uma banda de rock, seria interessante conhecer um mínimo que seja de princípios musicais. Caso contrário, tudo bem. Vá em frente que ninguém está ligando para essas frescuras.

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Quando Nat King Cole gravou Mona Lisa, de Livingston e Evans, não tinha a menor idéia do sucesso que o disco faria. Siga seu exemplo.

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Olhe nos olhos da pessoa com que está falando. Só. Não mexa nem aí, nem ali, muito menos acolá. Pare com essas intimidades. Você poderá ser preso e processado.

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Os instantes infinitesimais tendem a durar entre 10 a 20 minutos. Enquanto isso, eles deixam você em hold enquanto tocam versões instrumentais vagabundas de velhos sucessos da bossa nova.

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Não há fim que não tenha começo, não há começo que não tenha fim. E assim por diante até o primeiro feriadão que aparecer.

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