Ivan Lessa - Inglaterra: este vasto sofá

Nem bem Papai Noel subiu lareira acima, os presentes ainda fechados, brilhando nos seus papéis dourados em torno da árvore de Natal, quando as pessoas se mandaram para o centro da cidade, ou cercanias, para começar a fazer fila para as liquidações. A liquidação natalina é uma instituição britânica mais feroz que a caça à raposa, no dia 26 de dezembro.

BBC Brasil |

Caçar para matar não pode mais, passar a noite diante da loja de departamentos pode.

E que vão os britânicos comprar? Ou melhor, os ingleses, já que estes estão mais na minha alça de mira do que o pessoal do, digamos, para dar um exemplo tétrico, o pessoal do norte do país.

Tenho, aliás, a respeito, minhas teorias. O norte de qualquer lugar é terrível. Da Nigéria, com seus homens-bomba incompetentes, à Austrália, que abusa de seu antipodismo pensando que ninguém está notando.

E que vão, perguntava eu retoricamente, os ingleses comprar? Vão comprar sofás. Sofás de todos os tamanhos em todas as cores, acabamentos e padrões. O sofá é o fetiche que sobrou nestas ilhas. Fecharam-se os pubs, deixou-se de lado o chá com scones das 5 (na verdade, era às 4 e meia), mesmo as pantomimas raream. Ah, mas não toquem no sofá! Sem sofá, um inglês não é nada nem ninguém.

Não é só o corpo de um inglês que repousa folgazão num sofá, Nele também a alma de um cidadão local, sem sapatos, se estende e, de controle remoto, maneja a televisão e, com ela, vai zapeando também o mundo. Dia virá em que os pinheiros natalinos serão condenados ao olvido e, em seu lugar, naquele melhor canto da sala, armarão um sofá decorado apenas com almofadas como enfeites.

Não falarei de meu Natal. Essas coisas continuam sendo muito pessoais e, com exceção de dois contos, aqueles do Machado de Assis e de Charles Dickens, apenas ganhando por meio corpo da triste história da pequena vendedora de fósforos, de Anderson, todo o resto, essa brutal realidade a que chamam de vida, não passa de má literatura. Disso e dela, eu tiro meu corpo fora.

Também não farei listas, outra mania que quase empata com a compra de sofá novo, ou tentarei responder aos quizzes (perguntas sobre o que houve ou não houve) que todos os jornais publicam, e que pegam fácil um terceiro lugar no rol (pronto, sem querer cá estou eu a listar) de subprodutos sazonais.

Frases do ano. Lá estão elas. Para serem lidas no sofá novo, o mesmo que saiu por uma pechincha. Não me lembro de nenhuma frase memorável a não ser aquela do Obama, que é bom de ginga mas fraquinho de bico e um tremendo de um contemporizador. Apenas por que é a mais citada, na categoria de mais ressonante e de menor significado. Disse o moço, pouco antes da reunião do G20:
"Não podemos passar a perna no futuro devido ao nosso medo do presente". Na verdade, de meu velho sofá Chesterfield (velho, muito velho), lutei para tentar traduzir com algum barackiano jogo de corpo a frase no original, onde o distinto usa em, relação ao porvir, o verbo to shortchange, qual seja, dar de propósito o troco errado, passar a perna. De qualquer maneira, o espírito da coisa está aí. Pode ser espírito de porco, mas, sem dúvida, espírito.

Ah, e a grande moda para 2010 (100 anos do grande campeonato vencido pelo Botafogo, não nos esqueçamos) será beber água, muita água, que agora ficou mais barata que muita bebida alcoólica, para não falarmos mais em sofá. Inevitável, no entanto. Vira, mexe, e há sempre um sofá no meio da história, Água. Depois eu conto, como diziam os cronistas sociais.

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