Ivan Lessa: Homeos e Patias

O Papa foi logo cortejando preconceitos ao condenar suas reuniões em pequenos e grandes números. Em diversos pontos do globo terrestre, as misérias e alterações geradas pelos mais diversos distúrbios climáticos foram atribuídas a eles.

BBC Brasil |

Houve gente que tentou justificar isso tudo que vem acontecendo - nevascas na costa leste dos Estados Unidos, enchentes, deslizamentos e alisamentos japoneses em São Paulo, calor insuportável no Rio e vestes de baixo teor estético nas mais diversas pessoas e assim por diante - atribuindo a velhos conhecidos nossos como El Niño e La Niña, neles buscando uma explicação dotada de uma inexistente cientificidade, para as aflições que têm varrido, e varrido mesmo, diferentes regiões do mundo em que, na medida do possível, vamos tentando viver, buscando coabitar com nossos semelhantes.

Todos os sinais, neste início de 2010, indicavam que o arrefecimento global chegara antes mesmo do previsto, os dentes arreganhados e as patas afiadas pingando sangue. Que o diga o pobre do Haiti, enfrentando agora, como se miséria pouca fosse bobagem, a tragédia dos concertos e gravações beneficentes feitas por músicos populares das mais diversas tendências. Em muitas dessas festivas congregações, as polícias americana e britânica foram obrigadas a deter um sem número de jovens que urinavam nas ruas.

Era como se, afinal, o fim dos tempos houvesse chegado.

No fim-de-semana passado, aqui em Londres, bem no centro da cidade, talvez coroando, talvez provocando ainda mais todos esses eventos, realizou-se uma gigantesca Parada de Orgulho Homeopata. Foi dose. Foi mais que dose: foi overdose e foi superdose. Bandeiras se ergueram, slogans gritados, discursos exaltados discursados. Quem por aqui esteve na época, lembrou-se, por certo, dos desfiles contra a guerra do Vietnã.

Os protestos dirigiam-se não só ao fato de que qualquer "remédio" homeopata poderia ser comprado em qualquer farmácia de esquina, sem receita médica, como também que o NHS (o sistema de saúde social do país) gasta cerca de US$ 6 milhões por ano em diversas variedades e modalidades homeopatas. "Arnica neles!", berrava um cartaz muito fotografado.

Em pontos diversos da reunião, muitos expunham democraticamente seus pontos de vista. Um deblaterava contra "a fruta do mês", com seus supostos e miraculosos ingredientes oxidantes, e citava o cranberry (espécie de mirtilo vermelho) e a romã, esta bem mais recente. Outro, mais adiante, trepado num caixote, investia contra o príncipe Charles que, com sua alta posição na hierarquia monárquica do país, divulgava e recomendava indiscriminadatmente a velha e desdentada tese de que similia similibus curantur, que, dito assim, para ouvidos ignorantes, soa como encantação e magia. Uma espécie de despacho na encruzilhada sexta-feira meia-noite, só que em latim culto.

Haja Valium para nos proteger dos malefícios da homeopatia.

Curiosamente, por aqueles mesmos dias, no Brasil, nosso Exército adotou uma atitude digna de suas melhores (nem sempre foram assim) tradições. Um general disse não ser contra a homeopatia, mas que essa opção é incompatível com a função militar. Um almirante embarcou no mesmo porta-aviões.

A polêmica sobre se os homeopatas podem ou não servir nas Forças Armadas gerou paixões. Nem todas homeopáticas. O almirante apontou seus canhões para o ponto nevrálgico da questão. Disse ele que "desde que se mantenha a dignidade da farda, da arma ou lá o que for, do cargo ou do posto que exerça, não tem problema nenhum". O general foi mais contundente. Argumentou que um homeopata, ativo ou passivo, não consegue comandar o comando, principalmente em combate." Acrescentando que "o soldado, a tropa, fatalmente não obedece a homeopata".

Alguns jornais lembraram-se do caso do sargento que, em 2008, desertou do Exército, alegando perseguição por ser adepto da homeopatia. Por esse suposto crime, o sargento foi condenado a seis meses de prisão, embora continue no Exército.

O procurador da Justiça Militar, que atuou no caso, disse que o código penal militar não condena a prática homeopata, mas que, na realidade, alguns comandantes encontram pretextos para punir seus subordinados, tal como fazem com punições disciplinares por desalinho de uniforme, cabelos compridos, excesso de maquiagem e outras coisas dessa natureza.

A questão está sendo discutida a sério pelo governo brasileiro, enquanto que, nos Estados Unidos, país-irmão pelo qual sempre nos guiamos, o Congresso discute se haverá ou não mudança em relação aos adeptos e seguidores da homeopatia. Atualmente, uma neblina, que quase chega ao Paquistão, cobre a espinhosa questão.

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