Ivan Lessa: Garota do coliforme fecal

Que bom que Tom e Vinícius partiram para cruzar outros mares de loucura, como diz o bolero La Barca. Desconfio que não amariam tomar conhecimento dessa notícia que andei pescando, ou melhor, me enrolando como croquete, numa página de importante e global jornal carioca virtual.

BBC Brasil |

Eu curto o que passou. Vivo num tempo que se foi, como não se cansam de apontar meus inimigos (Roberto Felipe Trindade, de Laranjeiras, e Carlos Mattosinho, do Catumbi). Assim pois, como eles afirmam, eu "já era", como já era esse Rio por que passei boa parte de minha vida.

É verdade, me cansei um pouquinho dos cartões postais com o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. O resto pode mandar vir que eu traço. Sem falar no fato de que, à distância, a coisa, a cidade, as pessoas que nela, por assim dizer, habitam, melhoram muito.

Sempre fui garotão de Copacabana. Da praia. Aquela mesma, cheia de luz e princesinha do mar, como quis João de Barro e Dick Farney gravou. Sem dúvida, dei muitas, mas muitas mesmo, chegadas ao Arpoador, a Ipanema e ao Leblon. A verdade, porém, a gente descobre depois que ela deixou de ser importante.

Copacabana foi a praia que mais frequentei, onde mais bola joguei e em cujas ondas mais mergulhei. Estou vendo Copacabana direitinho. Sem calçadão e até mesmo com lampião no meio da avenida Atlântica. Lembro-me como se fosse hoje das linguetas negras dos esgotos, as que conheci e até mesmo peguei uma distante intimidade.

Tinha aquela em frente ao posto 1. Tinha a do Lido. Tinha a que ficava bem em frente à Barão de Ipanema, quase desafiando o falecido cinema Rian. Tinha a que, mais adiante, espreitava o pessoal do chope no Alcazar e no Marrocos. Uns moleques desavisados brincavam naqueles córregos rasos, negros, imundos. Nunca vi motivo para espalhar o pânico e sugerir que fossem se banhar em outro lugar. Cada um é - ou era - dono de seu nariz.

Volto a este ano de 2010 e a notícia virtual, com ilustração a cores e tudo. Lá está a manchete: "Ipanema tem mais de 30 mil coliformes fecais em 100 g de areia". No subtítulo, depois de dar a prefeitura como autora do estudo, acrescentavam que presença de cachorro seria motivo do alto índice de bactérias. No miolo do texto, a recomendação feita na terça-feira, dia 2, pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente: o local não é recomendado para seres humanos, ou seja, cariocas, turistas e até mesmo paulistas.

Culpa, isto sim, de nossos irmãos irracionais, no que discorda a dermatologista Maria Fernanda Reis Gavazzoni Dias, que alega que o maior perigo reside nas fezes humanas, já que as bactérias dos animais são espécies diferentes das dos humanos. Com fezes de cachorros, exemplifica ela, o risco de doença grave é menor. Então tá bom. Mesmo assim, não vejo coisa mais linda, mais cheia de graça num doce balanço a caminho dos coliformes fecais, humanos ou caninos.

A matéria prossegue dando uma lista completa do estudo. A classificação é feita, segundo consta, de acordo com o número de coliformes fecais. Até 10 mil, a praia pode ser considerada ótima. De 10 mil a 20 mil, boa, e aí estão incluídas a Praia do Pontal, no Recreio, a em frente à Bartolomeu Mitre, no Leblon, a do Leme (morei lá, foi uma boa) e, em Copacabana, onde pelas manhãs ela é a vida a cantar, tudo jóia com os trechos diante da República do Peru e da Barão de Ipanema.

Agora, às más noticias: acima de 30 mil coliformes fecais, a classificação é de não recomendada. E enfileiram, para ficar apenas em Ipanema, Paul Redfern e Maria Quitéria.

A praia do Recôncavo, em Sepetiba, também é pródiga em coliformes fecais. Sublinho o fato de que nunca conheci quem lá fosse ter.

Outros tempos, outros modos. Quando deixei o Rio, em 1978, os coliformes fecais estavam dando "presente!" nas águas minerais. Talvez por isso, naquela época, eu tenha passado do chope preto para o loiríssimo. Pura superstição, bem sei, mas, com a vida, e todos seus coliformes fecais, a gente nunca sabe.

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