IVAN LESSA - Finalmente a aterrissagem

Chega de Portugal. Lá fiquei quase quatro semanas, dele escrevi mais de uma.

BBC Brasil |

Foi-se o bronzeado, ficou o DVD de Vale Abraão, do centenário Manoel de Oliveira, que eu só conhecia de nome e, mesmo assim, apenas o primeiro e só de piadas xenófobas.

São 3 horas e 23 minutos de projeção em meu novo cineminha particular (batizei-o de Cine Quanon), onde o espetáculo começa quando chego em casa.

Faltam-me cerca de 40 minutos para completar o trajeto, traçado originalmente pela romancista, lusa ela também, Agustina Bessa-Luís, de grandes dotes literários e que, no presente caso, trabalhou a trama flaubertiana de Madame Bovary em terras do Douro.

Uma delícia. Originalíssimo. Faltam-me agora apenas uns 56 filmes para me por em dia com o diretor De Oliveira (deixemos, por um instante, esse Manoel de lado) e umas 3.600 páginas para melhor apreciar as prendas beletristas da insigne Bessa-Luís.

Eu chego lá, conforme se dizia. Ou conforme eu, jovem e tolo, repetia o que ouvia nas esquinas sem imaginação do Rio de minha mocidade.

***

Por falar nisso, encontro-me numa fase que é pura regressão. Ou adiantado estado de senilidade. Ocorrem-me, no decorrer de um dia, frases e bordões que eu nunca mais ouvi, talvez mesmo jamais tenha usado, mas que faziam a música de fundo - uma verdadeira sinfonia quase muda - de uma época que se foi. O equivalente a todos esses "bombar" e "valeu" que ouço pouco e leio muito nas folhas informatizadas de meu torrão natal.

Desço Arundel Street a caminho do metrô e vejo-me de repente a dizer "Essa foi de amargar!". Espero que seja em minha impostação mental, ou seja, em voz baixa, para fazer uma conta de chegar. Embora eu já tenha flagrado, mais de uma vez, um ou outro cidadão me olhando atravessado e, algo temeroso, pegando distância de mim.

Qualquer coisa de inusitado na esquina de casa, ou mesmo em casa, vendo a gata fazer qualquer besteira, e, aí sim, em voz de cabeça, digo para ela e meus pobres sofridos botões neurotizados, "Eu, hem, Rosa!"
Quase sempre observo uma Londres como se ainda assistindo, na 5ª fila, centro, um espetáculo de teatro revista da velha Praça Tiradentes, caprichadas produções invariavelmente de Walter Pinto.

Outro dia mesmo, quando duas senhoras desandaram a trocar desaforos na fila do supermercado Sainsbury's, a dois quarteirões de onde moro, comentei com um jamaicano do meu lado:
- Essa foi fina, hem, companheiro?
Confesso que esperava que ele me respondesse com uma expressão amiga e encorajadora, que nos levasse ao pub mais próximo para detonarmos umas birinaites comemorando a nova e quiçá imorredoura amizade. Algo assim como:
- É de churupito!
Para meu desapontamento, ele limitou-se a dizer em voz alta para a mais enfezada das duas:
- You go, girl!
Cabisbaixo, segui meu caminho. Em silêncio. Externo. Por dentro, minha alma era a própria Rádio Nacional PRE-8 num domingo ensolarado do início dos anos 50.

Só dava coisas assim entre cuca e pulmões:
Você é que é feliz, primo. Felicíssimo. Chegou Amaral, o Tal. Tá no ré. Mora na filosofia, ô meu. Tem bububu no bobobó. Mulher com sabor pra frente. Mulheres, cheguei! A viatura taí. Me lelllva? Me dá um dinheiro aí. Eu quero é rosetar.

Uma vizinha olhou séria para mim. Apressei o passo para me refugiar nos 40 minutos que faltavam do Vale Abraão.

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