Ivan Lessa: Esse tal de críquete

Ivan Lessa Que Usain Bolt que nada! Que Cristiano Ronaldo! Que campeonatos britânicos de futebol! Bom mesmo é críquete. O críquete, como já disse alguém, não é um caso de vida ou morte.

BBC Brasil |

É muito mais importante que isso.

Passei 40 anos lutando para entender essa paixão britânica. Que é paixão também indiana, paquistanesa, jamaicana, neozelandesa e, principalmente, australiana. Começo a gaguejar meus conhecimentos da - essa sim - nobre arte. Com o auxílio de muitos livros, muita pesquisa em jornais, a paciência de amigos e conversas entreouvidas no metrô.

Agora mesmo estão celebrando - e como! - a vitória da Inglaterra sobre a Austrália naquele que é seguramente o torneio, campeonato, disputa, melhor de muitas, chamem do que quiser, mas, insisto, é a competição mais séria da disciplina: The Ashes. As Cinzas. Que os ingleses deram uma tunda nos australianos e tome suplemento especial, retrospectiva na televisão, pifões homéricos no pub da esquina.

Vamos por etapas, como dizem os pilotos de Fórmula Um. Em primeiro lugar, o que é e como se transcorre o críquete. Abro logo um parêntese, há séculos, em Nictheroy (uso a grafia mais lógica), onde havia uma bela colônia de ingleses, o críquete era razoavelmente popular. Entre os gringos, claro. A turma local ria para valer dos pobres dos idiotas e continuava a torcer furiosamente pelo Canto do Rio.

Nunca vi um jogo. Desse críquete exilado e amador. Mas um amigo, que trabalhava comigo em publicidade, inglês como um batsman (é uma posição da contenda; talvez cheguemos lá, talvez não), tentou, em mais de um almoço no Dirty Dick's, me explicar o bê-á-bá da modalidade. Nem ao "bê" cheguei.

Em 1968, já residindo em Londres e, além do mais, trabalhando para o Serviço Brasileiro da BBC, como era chamado então, decidi que, mesmo não tendo sido chamado a compreender as subtilezas (essa a grafia correta) do cricket (outra grafia corretíssima), fazia parte de minha educação londrina tentar ao menos entender do esporte, da modalidade, chamem do que quiserem. Não tendo que ir aos famosos Oval ou ao Lord's, os Maracanãs do críquete, tudo bem comigo. Era só ligar a televisão, pegar um manual ou guia, talvez um amigo meio de pilequinho, e ir traçando.

Nunquinhas, meu camarada. O críquete, e o cricket também, descobri só agora tarde na vida, velho e alquebrado, é pura sacanagem deles para com nós todos. Para aquele que já foi o maior império do mundo e, agora, decadente e desdentado, vive da pura sede de vingança. Talvez por isso perdoem terrorista assassino líbio. Who knows? Eles gostam de se fazer de excêntricos. Por isso, vão inventando coisas, improvisam. Só para desnortear esse três quartos do mundo que já foi deles (e, nos mapas, em cor-de-rosa). A coisa é toda feita com espelhos. Feito essas mágicas de circo vagabundo: serrar mulher ao meio, fazer bola desaparecer no meio do ar, adivinhar a carta que aquele cavalheiro na terceira fila tem no bolso esquerdo do casaco. Por aí.

Consultando compêndios para levar outros tolos comigo - vocês aí - para o poço da ignorância onde vivo, como e bebo, descobri no e na Wikipédia, para vocês verem como é imaginário o cricket e o críquete também, que os movimentos principais do desporto parecido (parecido é a mãe!) com o baseball ocorrem numa faixa retangular de pouco mais de 20 metros de comprimento, bem no centro de um relvado, onde o raio da pesada bola (de madeira e borracha) chega a voar até 150 km/h, quando impulsionada por aqueles vastos tacos, ou bats, em formato de remo.

E o herói do momento chama-se Andrew Flintoff. Guardem esse nome. Agora esqueçam. E de tudo que for dito a respeito do cricket-críquete. Por mim ou qualquer outro ignorante enganador. Nenhum jogo, nenhum match, que leva mais de 3 dias para chegar a uma conclusão deve ser levado a sério.

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