Ivan Lessa: Esperando Obama

Os slogans da campanha prometeram. Sim, nós (norte-americanos e pró-Barack Obama) podemos.

BBC Brasil |

Sim, ele é a mudança que precisamos. Estados Unidos e todos nós.

O mundo prende a respiração. Em certos lugares mais que nos outros. Em Gaza, por exemplo. Bancos e entidades financeiras sentem um friozinho na boca do estômago. Os pequenos poupadores sentem as mãos tremer de ansiedade. Sim, Obama pode. Obama é a mudança que todo mundo precisa. O homem não vai chutar o pau de seu quase-quase prenome, a barraca. Muito pelo contrário. Vai pegá-lo e cravar direitinho em seu devido eixo. Na areia, na terra, até mesmo no mar, se for preciso.

Não há nada melhor do que a expectativa de mudança da guarda. Não há nada mais difícil do que mudar em ordem uma guarda. Todos querem ser guarda, ninguém quer ser guardado.

Mais: ao contrário do que se diz a humanidade ainda não perdeu a fé. Acredita na viabilidade do ser humano. Barack Obama é exemplo vivo dessa saudável crença.

Vamos por partes. Como disse Hannibal Lecter.

Não há nada que vicie mais do que a nicotina. Dizem. Heroína? Cocaína? Crack? Mole. Basta perguntar, ou ouvir, a mais recente gravação de Amy Winehouse. Total reabilitação. Plena forma.

A talentosa ave canora judaica do norte de Londres deu duro, comeu o pão que o diabo amassou, cometeu uma série de lugares comuns obsoletos mas finalmente reabilitou-se. A jovem, assim como George Bernard Shaw, pode dizer que abandonar vicios é a coisa mais fácil do mundo, uma vez que já os abandonou um sem número de vezes. O que os jornais sonegam é a informação vital: Amy Winehouse fumava? Caso positivo, parou de fumar? Bom cantor fuma e canta. Ao mesmo tempo, inclusive. Aí estão, agora infelizmente apenas em filmes e clips, e não me deixando mentir, Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. (esse que gravou nos anos 60 Yes I can, que serviu inclusive de título para sua autobiografia).

Voltemos ao compasso de espera em que nos encontramos. Barack Obama. Já está num hotel de Washington. Com a família. As jovens Obamas iniciaram na segunda-feira que passou suas aulas. Michelle deve estar às voltas com o guarda-roupa que, pelos próximos previsíveis oito anos, deverão servir de modelo ao país a que servirá como primeira-dama e um mundo morto de curiosidade por tudo que se passar e for emitido da Casa Branca e cercanias.

Resta a pergunta crucial, e árabes e israelenses que me perdoem a referência implícita à cruz em que padeceu Nosso Senhor Jesus Cristo: Obama já parou de fumar? Judeus e árabes às turras não é novidade nenhuma, estão há mais de 60 anos nessa e não tem ninguém com muita vontade, ou capacidade, de apartar esse pau. Não será Obama nem o dono da varinha mágica da concórdia nem o homem a fazer voar a pomba da paz.

Sim, ele pode. Sim, ele representa as mudanças de que os americanos precisam. Ninguém no entanto mencionou o Oriente Médio. Duas coisas importantes a conferir no governo que deverá se iniciar dentro de mais onze dias. Pela ordem: primeiro, ele parou de fumar? Segundo, tem traçado os planos para enfrentar a desordem econômica mundial? A coisa vai nessa ordem porque, como sabemos, dinheiro, rico, pobre, essas imponderabilidades todas, têm (adeus, adeus, meu circunflexo querido. RIP) um certo jeito de se virarem e resolverem sozinhas seus problemas. Basta não deixar muita gente se meter.

À primeira e mais importante questão: Obama parou ou não de fumar? Caso positivo, como? Adesivo com nicotina? Goma de mascar idem? Hipnotismo? Pura e simples força de vontade (sim, ele pode. Sim, nós podemos acreditar em suas mudanças)?
Sabe-se, e não foi a oposição que espalhou, que há 20 anos Obama luta contra o vício abominável. Agora, com tarefas hercúleas e obrigações implacáveis pela frente, só podemos questionar, indagar, perscrutar. Adivinhar o que oculta seu atual ensurdecedor silêncio.

Repetindo, e finalizando, um mundo aflito quer saber: o líder da nação mais poderosa na face da Terra conseguiu ou não deixar de lado o cigarrinho, sem suar ou sofrer muito?

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