Foi há muito tempo. Quando o Serviço Brasileiro da BBC ainda falava.

Não me entendam mal. Refiro-me aos longínquos anos pré-informáticos quando a transmissão era diária, em ondas curtas e com uma duração de duas horas e quinze minutos.

Os dez primeiros minutos eram dedicados ao noticiário que os dois funcionários encarregados de botar no ar a programação se revezam na leitura do que vinha acontecendo no mundo. Há mil histórias a contar e pelo menos umas dez já foram contadas.

Eu quero abordar o fato de que tudo era traduzido e os locutores (de preferência não profissionais, conforme a "casa" exigia) tinham de se virar na hora de pronunciar os nomes que então faziam manchetes e miolo das notícias.

Por exemplo: a Checoslováquia com sua esplêndida cidade de Brno. Como pronunciá-la? Simples. Havia - talvez ainda haja - uma "pronunciation unit" em ação 24 horas por dia. Bastava ligar e perguntar.

Tudo isso porque agora que os embates cessaram no Sri Lanka, onde o grupo separatista Tigres de Libertação da Pátria Tâmil, após 26 anos de violência, rendeu-se e o governo reassumiu o controle total da ilha, declarando encerrado o conflito onde sucumbiram, calcula-se, perto de 100 mil cingaleses. Resta agora o que sempre sobra das guerras: desabrigados, desaparecidos, destruição, a espera pela ajuda humanitária.

Nada disso é bom. Claro. Vejamos, no entanto, os problemas que os repetidos choques entre milícia e governo causavam aos "leitores de notícias" aqui da BBC Brasil.

Começando pelo nome do país onde tudo isso se deu. Sri Lanka. Quase sempre saía "siri", o que não era uma boa. Nunca entendemos porque não deixavam como os ingleses o batizaram: Ceilão. E quem habitava o Sri Lanka? Os cingaleses. A que pátria deveriam então estes cidadãos pertencer? Ao Cingal, sem dúvida.

Duro mesmo, mau como um pica-pau, para nós e os cingaleses, era o nome do líder do grupo separatista.

Digitá-lo é mole. Velupillai Prabhakaran. Experimentem dizê-lo em voz alta na hora do papo sobre política no botequim. Fogo. Com o atual presidente, as coisas melhoram um pouco. Só um pouco. Mahinda Rajapaksa. E a capital rebelde? Kilinochchi, sim, senhor.

O que nos invocava - e a mim ainda invoca - é o nome da capital. Primeiro lugar, porque, segundo certos compêndios, não tem problema, é Colombo, aquele do "fecha a porta dos teus mares", conforme ordenou, ou pediu, nosso querido Castro Alves. Essa seria, no entanto, apenas a capital econômica. Sendo que a capital política é (ou será?) Sri Jayawadenapura Kotte, ou Kotte apenas, para os que amam brevidades. Ambas as cidades ficam lá embaixo, muito juntinhas uma da outra, na região oeste da ilha-nação.

Mais uma coisinha, já que falamos de poesia. Sabei, distinto público, que a ilha - Ceilão ou Sri Lanka - era conhecida dos gregos e dos romanos, que a chamavam de Taprobana, como citou Camões na quarta linha do primeiro verso de seu esplêndido Os Lusíadas.

Vocês lembram, claro.

"As armas e os barões assinalados,
que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana..."
Sim, sim, eu sei. Tudo isso é muito pouco importante em vista do fato praticamente inédito de uma guerra ou conflito chegar ao fim. De gente parar de morrer nas mãos de outras gentes.

Busco apenas um pouco de compreensão, um auxílio humanitário retroativo, digamos assim, para os pobres funcionários desta seção que, todos os dias, tinham de ir lá e, suando frio, espalhar ao vivo para o Brasil e o mundo, seus problemas, suas dificuldades com o cingalês e os cingaleses.

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