Ivan Lessa: Enfrento enfim o celular

Passei anos me irritando com esses celulares carregando pessoas ao lado como pingentes. Debochei, me irritei, lancei olhares malignos.

BBC Brasil |

Talvez porque gente falando sozinha na rua ou em condução me lembrasse os loucos de minha infância, que eu tanto temia e dos quais contavam histórias terríveis. Em suma, impliquei horrendamente com a nova tecnologia. Continuo implicando. Horrendamente.

Com uma diferença. Agora tenho um celular. Implico, pois, de cátedra, ou de meu sofá de couro, de onde posso dirigir meus maus pensamentos a todos que celularizam. Munido desta vez de algum conhecimento de causa.

A rigor, sem nenhum conhecimento de causa. Ganhei o celular, sorri agradecido, abri a caixinha, ouvi com atenção as primeiras explicações básicas, segurei o bruto nas mãos (não foi desagradável), folheei o livrinho de instruções. Nada entendi.

Admirei no entanto, sou forçado a admitir, o design do pequeno aparelho. Pequeno? Pequeno. Mais ou menos do mesmo tamanho de um valete de paus e a espessura das 13 cartas de um naipe.

Garantiram-me, pessoas e manual, que eu poderia entrar na net, googlar, enviar e-mails, tirar fotos e gravar vídeos. Formidável. Em tese. Definitivamente, não era esse o meu objeto de desejo. Sou mais um zimmer frame, um andador para idosos de alumínio cromado.

O fato de eu agora ser dono de um moderníssimo (é o que me dizem) celular não significa que eu tenho aderido à nova tecnologia. Já tem mais de uma semana e, até agora, liguei-o uma vez e, sim, iluminou-se como uma árvore de Natal. Por aí ficamos.

Ele dentro de seu preservativo me olhando, eu de calça e camisa esporte olhando-o. Há mais que desconfiança aí. Trata-se de um ódio calado. Que calado continuará, pois não se pode nem se deve desfazer de presente dado com as melhores das intenções.

Continuo sem ter ninguém para textar, ou torpedear, se é esse o verbo empregado no jargão celular. Ou para conversar. Nada é muito urgente em minha vida. Toda urgência passou. Acabou. Cada solidão é resolvida à maneira de cada um. Eu resolvi a minha sem celulares. Frisando sempre que não me é útil para o trabalho. Acrescentando que não sou corretor de nada muito menos vendedor de crack.

Será levado adiante o respeito mútuo, a letal desconfiança entre nós dois, dentro das tradições do faroeste, onde mocinho e bandido, ou bandido e bandido, ficavam apenas se espreitando, à espera da hora de mandar uma azeitona na testa do outro.

E azeitona na testa me leva ao bom Hugo Chávez que lançou nesta semana na Venezuela um celular ao alcance de todos os pobres coitados de seu país pelo mais que módico preço de 15 dólares. Não tivessem os pobres venezuelanos problemas suficientes.

Sim, o danado (refiro-me ao celular) faz tudo. Tem câmera e vídeo, acesso WAP à internet, rádio FM, MP3, MP4, MR8 e outros grupos de revolucionários armados. O interessante é o nome que o grande Chávez deu ao fruto de seu presidencial esforço virtual: batizou o bichão de "vergatório" (de verga, vara), que, em baixo calão venezuelano, refere-se, claro, ao membro masculino.

Meu celular já o batizei: na intimidade do lar chamo-o de Marzapo. E estamos desconversados.

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