Ivan Lessa: Elesbão, o bleso

Há umas semanas andei falando da vida e da morte de palavras. Acho.

BBC Brasil |

Não juro mais nada. As palavras passaram a me confundir e fazem com que eu confunda os outros.

Quando vou de inglês é pouco mais de "sanqui iú véri mâti". Mas o que me dana é desconfiar, ou quase saber, que, no Brasil, a cada dia que passa, cerca de 100 a 200 palavras e expressões passam desta para melhor, revertem ao ad locum tuum, deixam a língua na horizontal.

Não sou um homem pedante. Muito pelo contrário. Gosto de gíria antiga, aprecio quando surge algo novo em nosso repertório léxico-vocabular, como dizem os tolos. Acho que, em vez de reforma ortográfica, o que deveríamos ter feito é um acordo no sentido de não jogar fora nenhuma palavra ou expressão.

Fazer feito o Oxford Extended Dictionary. Que só acrescenta.

Assim deveriam se passar as coisas num mundo perfeito. Ou ao menos num Brasil menos irrazoável. O analfabetismo continuará, como sempre, a ser incentivado e não combatido, conforme é o comum em partes várias do mundo.

Temos que utilizar o proverbial - e acho que não passa disso: provérbio - ouvido e ver o que parar de usar ou não usar nunca.

Não tem sentido, concordo, em alguém "dar as de Vila Diogo" mas que fique, ao menos um registro de sua existência. E pelamordedeus, "joia", "joínha", "valeu" e tudo que começar com "super" deveria ser punido com um desses pesados e ineptos dicionários que supostamente ensinam os cidadãos, a bem dizer, a turma das editoras (Oba! Oba!) a escrever reformando e - um dia, nas calendas (Epa! Epa!) - talvez até acordada com outros países de fala portuguesa que não apenas São Tomé e Príncipe. Confio na lisura das outras comunidades da língua herdada de Bocage.

Eu chego e digo para alguém não muito mais moço do que eu: "Neste fim-de-semana estou de cigarra." Não sou entendido. Se eu dissesse: "Eu vou mandar brasa neste fim-de-semana já que minha mulher e filhos vão para o norte". Chato. Triste. Tão bonito "ficar de cigarra". Poético mesmo. Aí está, ou melhor, esteve, entre nós, Olegário Mariano, dito "O Poeta das Cigarras".

A tal tolice que andei escrevendo. Era sobre nomes escalafobéticos. Muita gente me cobrou a escalafobetice. E se eu tivesse encaixado estrambótico? Pensaram no bolo entre os meus 7 (sete) leitores?
Isso aí.

A título de curiosidade, e porque hoje aqui é feriado, reproduzo abaixo um texto famoso entre a gente boa de meu tempo. É para tentar entender o tal texto. Traduzi-lo, por assim dizer. Foi um desafio lançado em priscas eras (arram!) a seus leitores por um jornal nosso que já bateu as botas, como outros 25 mil. Frise-se, já que há uma nítida baixa no número de bons entendedores, que todas as palavras existem, nhô, sim, e que os parágrafos exigem - trabalhem, vocês sete - constante conferida num dicionário assim-assim. Se encontrarem.Segurem aí:
"Elesbão, o bleso
Elesbão era conhecido na cidade por três particularidades: era bleso, sofria de incurável ofíase e criava gimnuro. Além disso, seu rosto glabriúsculo lembrava o de uma donzela gípsea.

Às tardes, cumpria um hábito cotio: com seu nariz acipitrino, lá se ia ele, em prolongadas giratas, bisbilhando sempre, entre dentes, surradas gnomas, de todos conhecidas.

Atendia-o, nos serviços de casa, um gibi magricela, portador de estranho gilvaz, que havia acolhido, por era de boamente. O tal, apesar de sua irrecuperável acídia e não raro acrasia - já que abusava dos abres, principalmente da cabriúva - era mantido por Elesbão, que morria de amores pelos saborosos doces de gila-caiota, que sabia, como ninguém, preparar.

Conta-se, porém, que certa vez, Elesbão abecou-o, por ter descoberto que o pixaim era atrevido em pôr aratacas, de pura maldade. Nesse dia, Elesbão, justamente achavescado, ficou de capiroto aceso, acofobou-se e acajipou a focinheira do cafuzo. Mas este nem chus nem bus."
***
Vão nessa, reformistas super joias, vão nessa.

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