E eu pensava que estava livre de vez do raio dos filmes em 3D? Há décadas, no Rio, quando surgiu a novidade, eu botei o terninho (exigiam) e fui fazer fila no Cineac Trianon para ver um faroeste paupérrimo, insuportável, com, se não me engano, o John Agar, cuja fama residia no fato de ter sido casado com Shirley Temple. Peguei os oclinho, entrei, sentei, acomodei-me aos meus óculos semi-naturais, que me permitiam enxergar, mais ou menos, a vida em três dimensões, e fiquei à espera.

Tudo que consegui ver era uma confusão dos diabos com metade da tela em azul e a outra em vermelho. Fiquei até o fim, inexplicavelmente. A esperar a nova maneira de Hollywood tentar combater a televisão. O Cinemascope vinha aí, como sabemos hoje. Mas isso é outra história.

Nesta semana, o Channel 4 daqui contemplou sua audiência, que anda minguando, aliás, com vários programas em 3D. Os "oclinho" eram distribuídos grátis num supermercado. Teve até lesa-majestade na programação. Levaram um short sobre a Rainha Elizabeth em 3D.

Há alguns séculos, isso daria em forca ou decapitação. Nada. Aceitaram tudo. Inclusive o filme ultra-kitsch da fábrica de Andy Warhol sobre Frankenstein, dirigido pelo infeliz do Paul Morrisey. Data dos anos 70 quando camp e kitsch viraram moda e, nessas horas de faturar, Warhol nunca deixou de dar presente. Nem dei uma espiada. Prefiro passar mal nas dimensões que Deus me deu e nas duas de, por exemplo, John Ford, de quem já vou falar dentro de algumas linhas.

Os franceses, diante dos fenômenos Sarkozy e Carla Bruni, e a persistência de Jean-Luc Godard, que insiste porque insiste em continuar fazendo films, algo apatetados, sempre que se veem diante de um cinema, bolaram sem a menor necessidade que não a "artística"(ah, os franceses e a Sétima Arte!), uma tal de Cinématon.

De que se trata? Segurem-se. É, segundo eles, em sua desenfreada cinefilia, o mais longo filme de todos os tempos. 150 horas. Seis dias de exibição contínua. Haja pipoca, meu Senhor! O filmão, esse Godzilla da cinematografia, será mostrado ainda agora, neste mês, em Avignon.

Seu diretor, Gérard Courant, teve a idéia em1978 e levou 31 anos para levá-la à sua fruição. Um homem sem pressa, o Courant. Há enredo no filmaço? De jeito nenhum. Que bobagem. São vinhetas que vão dos 3 minutos aos 25 segundos. Só celebridades, artistas, jornalistas e amigos do diretor. Lá estão o Ken Loach, talvez o mais chato diretor inglês de todos os tempos, o Terry Gilliam, a quem respeito sem ufanismos devido ao Brazil, e o grão-mestre de xadrez Joel Lautier, que vocês estão fartos de conhecer.

Courant pensava, no início, em enfileirar apenas 100 segmentos, mas para sua sensibilidade delicada e exigente, achou que seria "popular", ou seja, vulgar demais. Então foi acrescentando. E acrescentando e acrescentando.

Um jornal britânico, o Daily Mirror, já chamou de "o filme mais chato de todos os tempos". No escuro, sem ver. Concordo. Tem que ser no escuro, não é para ser visto.

No caso, uma chegada à Wikipédia compensa a curiosidade malsã daqueles, como eu, que querem saber qual, afinal de contas, o filme mais longo de todos os tempos. A Wikipédia, para variar, erra à beça. Dão o Berlin Alexanderplatz, do Fassbinder com suas 15 horas ou 931 minutos. Esse, eu vi. A BBC, há alguns anos, exibindo (latu senso) sensatez transmitiu por partes. Não é a melhor coisa do esplêndido alemão. Mas lá estão, na Wiki, e não tenho como discutir, Shoah, do Claude Lanzman, com 9 horas ou 566 minutos que a BBC, novamente, exibiu em sensatos segmentos. Quanto ao Evolution of a Filipino Family, de Lav Diaz (quem?), com suas 11 horas ou 643 minutos, não tenho como e nem quero discutir ou voltar a falar nisso.

Registre-se que nenhum deles é tão longo ou aborrecido quanto a versão de 1993 de Psicose, do Hitchcock, que um indivíduo por nome Douglas Gordon (vade retro! Toc, toc, toc! Passa daqui!), que se faz passar por artista, e deve se achar francês de boina, camisa listrada e tudo, conceitualizou a obra-prima de 1960 em 24 horas de duração. Fotograma por fotograma. Leeeento, leeeento, leeento. Parece que tem gente que foi e viu. O mesmo Douglas Gordon planeja mostrar Rastros do Ódio, ou The Searchers, se preferirem, de John Ford, em cinco dias, precisamente o tempo de ação em que o filme se passa.

E eu que pensava que o filme mais longo do mundo fora, ao menos para mim, Terra em Transe, do nunca assaz louvado Glauber Rocha. Definitivamente, estou por fora.

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