Ivan Lessa: Cheque-Mate, cheque morto

Não, é assim mesmo. Com ch, nada de x.

BBC Brasil |

Todos nós somos filhos de Deus e, já que brasileiros, com direito a uma reforma ortográfica pessoal e intransferível. Cheque-mate, pois.

E, sim, senhor, estou falando de cheque. Essa velha instituição prestes à extinção. Cheque? Extinção? Foi isso que eu disse? Pois disse-o bem e com verdade. Os cheques vão acabar. Pelo menos aqui no Reino Unido, pelo que entendi. E se vão acabar aqui, vão acabar também, ao menos, na União Europeia, confere? Isso aí.

Mas devagar com a louça, não é feito guerra no Iraque ou no Afeganistão, que ninguém sabe até quando durarão. Os cheques serão abolidos - e gradativamente - até o ano de 2018. Em seu lugar, cartão de crédito ou celular. Não creio, e nem ninguém que eu conheça crê, que eu ainda esteja por aqui. Em todo caso, já vou dando minhas despedidas e com parte de minha alminha de luto.

Gosto de cheques. Foi uma relação difícil e tumultuada a minha com eles, mas, como é comum nesses casos, cheia de afeto e dissabores. Parafraseando o poeta Drummond, ora estátua de bronze sem óculos num banco da avenida Atlântica, o cheque é isso mesmo que você está preenchendo: uns dias tem fundos, outros não tem.

Aqui em Londres, eu uso cada vez menos cheques. Pelo menos uns 90% de minhas despesas e obrigações são pagas ou por crédito direto ou por cartão de crédito. Isso facilita muito minha vida. Mas, e há sempre um mas, sinto falta da cerimônia de preenchimento. Pois cerimônia era. Principalmente quando eu mandava um fajuto ao final do jogo de pôquer há mais tempo do que eu pensava e sinto. Ó, quanta emoção!
Claro que eu não era besta de pagar a prestação do liquidificador (sim, fui homem de comprar esse eletrodoméstico a prazo e sem juros, em geral na Bemoreira) com um cheque sem fundos. Ou qualquer coisa mais séria. E tudo é mais sério que um liquidificador. Mas um pôquerzinho entre supostos amigos... Ah, aí valia o coringa, sim, senhor, embora essa carta não faça parte do melhor carteado do mundo.

Lembro direitinho, próximo que estão de mim os dedinhos finos e gelados de Alzheimer a me cutucar as costas. Quando o pôquer virou mania, ou vício, se quiserem, entre a turma que eu frequentava.

No final, na hora do acerto de contas, o fajuto batia sempre na mesa. Uma hora que podia vir até 10 ou 24 horas depois da primeira rodada de fogo da jogatina. Um ou outro nome eu dou dos mais habituais companheiros do pôquer amigo. Leon Eliachar, que não podia faltar de jeito nenhum, já que era o dono da maleta com aquela ficharada toda. Habitués também, e principalmente, Antonio Maria, Bené Nunes, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Jairo Leão, pai de Danusa, por sinal mais tarde, e por uns tempos, também frequentadora e anfitriã da melhora roda de pôquer do Rio.

A coisa começou lá por volta de 1960. Uma vez por semana. Depois, duas. E, finalmente, como sempre acontece, quatro ou cinco vezes por semana. Eu não era bom jogador. Medíocre beirando o razoável, como em quase tudo que fiz. Nervoso, uma vez que sentar à mesa, "chorar" as cinco cartas, pedir uma encostando um rei na trinca de seis, e depois tacar ficha sempre foi um desgaste emocional quando minha conta no banco estava a zerusca.

Mais tarde, bem mais tarde, anos 70, pôquer bem comportado, com hora para começar e acabar, uma vez só por semana, às quartas-feiras, eu com um saldo razoavelmente saudável no banco, melhorei muito e era difícil perder. Jogava até que direitinho. Esse dos anos 70 era na casa de Beatriz Carneiro, com o irmão Mário, sempre presente, mais novos assíduos.

Saudade, mas saudade mesmo, era daquele sofrimento dos anos 60. Como mandei cheque voador, minha Nossa! Na semana em que Jânio renunciou então, quando os bancos ficaram fechados por sei lá quantos dias, era pôquer todos os dias e desvairada acumulação de cheques, alguns até, juro!, com fundos. Superada a crise governamental, veio a nossa pessoal. Todo mundo voando para o Zé Luís Magalhães Lins, então à testa do Banco Nacional, para empinar papagaios.

Não esqueço de um tipo maravilhoso, no que o Rio era pródigo, o Loturco, com um cheque dos mais marotos na mão (ele tinha bom faro e olho), batendo com ele na mesa e, com sua voz meio roufenha, avisando, "Esse vai pro pau! Esse vai pro pau!" Quer dizer: cobrança judicial.

E, bobeássemos, ia mesmo. Agora tentem imaginar uma roda dessas com todo mundo puxando da carteirinha um cartão de crédito ou um celular. Não dá. Ou melhor, até que dá, sim. Qual o cartãozinho plástico ou celular que não é fajutável? Imaginem então em 2018.

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