Ivan Lessa: Banqueiros do barulho

Entendo muito pouco de banco. Na minha mocidade, como todo mundo, andei passando um ou outro cheque sem fundo nos dias de azar no pôquer.

BBC Brasil |

Voltavam, eu pedia desculpa, pagava quando podia, e nunca â¿ conforme se dizia â¿ nunca um dos meus bravios cheques voadores "foi pro pau", como me ameaçavam os parceiros de menor intimidade.

Os bancos eram sérios, verdadeiros templos em que se podia contemplar os mistérios da vida e da morte enquanto se ficava na fila esperando a vez de entregar o cheque ao portador (eu ganhava nas cartas também, uai!), aquele suspense de saber se teria ou não fundos.

Os bancos tinham fundos. Muitos fundos. Mas não se falava nisso na época. Empinávamos papagaios para pagar as despesas com noites alegres e mulheres falsas, pois nem só de carteado vive o homem.

Ainda se fala "empinar papagaio"? É fazer uma promissória. Pegava-se um amigo como avalista e lá íamos para o banco em que o diretor geral (não darei o nome) era um tipo finíssimo, mestre da arte de relações públicas. Nunca um jornalista (sem diploma, feito agora) saiu de seu escritório na Rio Branco com as mãos abanando.

O "cinema novo" foi praticamente financiado naquele escritório de cheiro gostoso de couro e a secretária mais que eficiente (também não digo o nome) que cuidava de todos os nossos problemas. Hoje, o amigo avalizava. Amanhã, avalizávamos o amigo. Ás vezes, até no mesmo dia e hora.

No meu trabalho - publicitário, redator -, escrevi muito anúncio para banco. Desse mesmo banco, aliás. Ao contrário de meu texto para lojas de eletrodomésticos, minha conversa com a máquina de escrever era sincera. Não mentia. Aquele banco, aquele banqueiro, a secretária, o gerente na outra sala, era o que havia de melhor, de mais garantido, de mais honesto.

Eu disse que não tinha diploma de jornalista. Tampouco de economista. Não possuía sequer â¿ e abro o jogo mostrando o blefe â¿ os conhecimentos rudimentares sobre como a coisa funcionava: aquele imprescindível toma-lá dá-cá das grandes jogadas de nossa sociedade capitalista. Na hora de protestar (nada a ver com cartório), eu pedia mais um chope e, junto com minha turma, aguardava a hora da revolução redentora. A outra. Não aquela que acabou vindo.

Agora que estou velho e só jogo pôquer no computador e mesmo assim com dinheiro de mentirinha, vejo as coisas mais claramente. Banqueiros. São todos uns safados. Estão aí o que nem se pode chamar de escândalos mas sim de contos do vigário. Aí nos Estados Unidos e aqui no Reino Unido.

Deram, os bancos e seus banqueiros, uma rasteira feia no povão, levando seu rico dinheirinho e abocanhando suas poupanças. Saiu tudo incólume. Continuam botando suas bancas em escritórios luxuosos e cheirosos, cercados de secretárias lindas, simpáticas e eficientes. Ninguém caiu do cavalo e continuam incólumes montados na burra do dinheiro. (Ainda se fala em "burra do dinheiro"?)
Quem pagou o pato (ainda⿦etc) fomos nós. Ou melhor, quem investiu suas economias e acumulou com sacrifício uma poupança para essas simpatias, essa gente boa, administrar. Comigo não, violão. (Ainda se⿦)
Eu só confiei num banco e num banqueiro: aquele da avenida Rio Branco. As libras, não muitas, foram todas bonitinho para o colchão que eu não sou besta. Além do mais, aprendi que, não sendo banqueiro, é mais conveniente não passar cheque sem fundo.

Daí então que o assunto desta semana aqui no Reino Unido foi o acordo que o Royal Bank of Scotland (o RBS), que deu um trambique firme nestes ilhéus daqui, encontrou um novo executivo para limpar o nome da por agora desonrada instituição. Os fatos estão aí: o RBS foi o banco que mais perdeu dinheiro no mundo inteiro. Foi para o Livro Guinness dos Recordes.

O contemplado com a gostosa tarefa de levantar moral e fundos do RBS foi uma figurinha por nome Stephen Hester, que, de estalo, recebeu a garantia de levar uma nota no valor de uns 15 milhões de dólares para cumprir um serviço público, uma vez que 70% do RBS pertencem ao público.

Isso é pinto perto do outro escândalo que correu e corre por aqui este ano, o das mordomias. É, aquele da malversação de fundos por parte dos parlamentares. Segunda a mui lida e influente colunista Polly Toynbee, as pessoas estão "incandescentes" com a cobiça indiferente dos banqueiros.

Estou esperando a passeata de protestos. Parece, no entanto, que estão todos em Wmbldn, torcendo por um escocês, depois de séculos, ter seu nome inscrito na famosa taça. E por falar em Wmbldon, esse banqueiro que vai dar um "jeito" no RBS, o Stephen Hester, pegou uma verba de quase 500 mil dólares só para entreter hóspedes de real valor no Torneio. Um homem pragmático.

Bom mesmo era empinar um papagaio de 20 contos nos bons tempos em que os banqueiros eram mais esclarecidos, mais honestos e, importantíssimo, amigões do peito.

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