Ivan Lessa: Arte de fita no cabelo

Minha sensibilidade para as artes visuais calça 42, tem dois dedos de testa, se coça em público nos países baixos e escarra na calçada. Vivo dizendo, quase como se estivesse me gabando, que tenho mais medo do Louvre que do Morro dos Macacos.

BBC Brasil |

Neste último, tenho a impressão, talvez falsa, de que sobreviveria a traficantes, policiais e helicópteros. Quanto ao Louvre, ele me assusta e chega a rondar meus pesadelos porque da única vez que lá adentrei meu coração foi batendo mais depressa a cada confronto com obra prima. Minha vista ia se turvando e, como um drogado do Morro dos Macacos, começava a ter pensamentos confusos e disparatados.

Quando dei com a Mona Lisa retesei-me todo. Peguei distância e já ia partindo para dar uma cabeçada na famosa - notória? - Gioconda de Da Vinci quando fui seguro por conhecidos que me acompanhavam e uma corpulenta funcionária do museu. Deram-me apenas um cartão vermelho e fui expulso do templo artístico. Pelo menos não fui em cana.

Ficou, no entanto, a epifania grotesca: eu não podia ver obra de arte pictórica. Tudo bem com ler Shakespeare em tradução do Onestaldo de Pennafort, Tolstói e Carlos Drummond. Ver filme de Eisenstein ou Jean Vigo. Ouvir Bach, Beethoven e Mozart. Mas não sei o que aconteceria se eu visitasse a casa-museu de Rodin, em Paris, ou me encontrasse frente a frente, melhor dizendo, mano a mano, com Portinari ou Tarsila do Amaral, para deixar logo claro que não se trata de xenofobia.

Não. É dessas coisas. Arte, a arte visual, constitui um perigo para mim, mesmo as que não acenam panos vermelhos para o touro furioso que jaz adormecido num canto recôndito, e espaçoso, de minha alma. Talvez seja tudo culpa do senso de humor. Que julgo ter. Desenho animado e histórias em quadrinhos, por exemplo. Até hoje morro de rir com Luluzinha, Pinduca e O Reizinho. Tocha Humana, Homem Bala e Batman, eu os aguentei firme e nada me fizeram. Nem de bem nem de mal. Apenas não eram engraçados.

Vou tentar esmiuçar o que comigo se passa. Desconfio que tenha algo a ver com a palavra Arte. Assim mesmo, com maiúscula. Fujo dela como o demo da cruz, como dizem as velhas tias. Busco, solitário creio, a descontração, o bom humor, a ironia e o sarcasmo e até mesmo - por que não dizê-lo? - o deboche. Em sendo a coisa muito séria e compenetrada, vou logo embarcando para a prise agressiva, abaixando a cabeça e me preparando para uma cabeçada mortífera no objeto, e tome aspas, "em questão".

Deve ser por isso que todas essas instalações ou artes ditas de participação ou conceituais que beirem, por menos que seja, o cômico, me deixam leve e sereno, alegre mesmo.

É o caso de Grayson Perry, que não pode estar mais na moda aqui na capital do Reino Unido e, quero crer, no país todo, quiçá o mundo. A arte de Perry começa com ele próprio. Veste-se invariavelmente e o tempo todo como uma menina debiloide.

Laço na cabeça, vestido estampado com as mais variadas tolices, cores ululantes se digladiando, sempre arrastando um ursinho de pelúcia, maquiado como uma louca. Um legítimo tranny, ou seja, aquele que adota o travestismo ou transvestismo como meio de enfrentar o mundo e os outros, principalmente os exigentes críticos de arte profissionais ou apenas zilionários investidores em arte.

Tem gente que o acusa de sensacionalismo. Uma chegadinha à sua exposição atual na Galeria Victoria Miro, aqui em Londres, dará de cara com sua obra prima, a Tapeçaria de Walthamstow, que tem o tamanho de um ônibus daqueles vermelhões e inclui quase tudo que preocupa o - sim, é verdade - pai de família Grayson Perry.

Do começo, na esquerda, de uma mulher dando a luz até um Cristo morto, no final, à direita. No meio, dezenas de ursinhos de pelúcia, logotipos de marcas famosas, como bancos, os correios, McDonald's, Louis Vuitton e por aí afora. O cidadão pode passar a melhor parte de um dia só fuçando a tapeçaria e descobrindo coisas. Não faz sentido. Como tudo que é bom.

Grayson Perry não faz sentido. Quem de nós fará? Estará troçando de todos? Da crítica especializada? Do estado das coisas? Possivelmente. No que faz muito bem. O importante é não incitar ninguém a pegar distância e dar uma cabeçada na tapeçaria do homem-meninona, obra já contemplada com o Prêmio Turner para as artes, o mais importante do país.

Ela é, sem sombra de dúvida, quase tão boa, divertida e espirituosa quanto um desenho animado do Pernalonga dirigido pelo Chuck Jones. Arte é isso aí. Ou assim deveria ser.

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