Ivan Lessa: A Bíblia, sagrada e virtual

O padre na igreja rezando a missa. A congregação de cabeça baixa, olhos fixos nos respectivos colos.

BBC Brasil |

O padre pronuncia as palavras Ite missa est. Amém, dizem todos em conjunto. E fecham o laptop.

Não é bem assim. Mas pode ser que venha a ser assim. Na quinta-feira da semana passada, dia 15 de outubro, a companhia de informática Glo lançou em todo o mundo a Bíblia cibernética para internautas de todas as fés e alguma competência no lidar com coisas informatizadas. Trata-se de um CD-ROM contendo não só o texto completo e anotado do livro sagrado mas ainda 2.382 fotos em alta resolução, 7.500 artigos, 463 excursões virtuais, 3 horas e meia de vídeo em alta definição e 689 reproduções de obras de arte.

A Glo afirma estar "dando vida à palavra de Deus". O preço é razoável: perto de US$ 80. Segundo consta, a empreitada comercial, e seus pontos de venda, não chegam a ser heresia, apenas gabolice publicitária.

Nelson Saba foi quem teve a ideia original e é seu principal criador (com C minúsculo). Saba já foi engenheiro aeronáutico e banqueiro. Nunca lhe passou pela cabeça construir uma Arca. Queria apenas espalhar a palavra de Deus numa forma atual e ao alcance de todos. Disse ele, em declarações à imprensa:
"Não há nada de errado com a Bíblia, mas temos duas gerações interessadas em mídia interativa. Se a Bíblia não for encontrada nesse formato interativo, não haverá a possibilidade de se fazer uma conexão com essas pessoas. Não se trata de fazer a mímica do que o papel vinha fazendo até agora. Trata-se de oferecer uma nova experiência."
Até onde se sabe, o céu ainda não se abriu e o Sr. Nelson Saba não foi atingido por um raio. Está bem de saúde e confiante na empreitada religiosa.

A experiência virtual inclui close-ups de arte sacra. Pinturas a fresco da Capela Sistina acompanhadas de texto elucidativo, para ficar num exemplo. Um passeio pelo Jardim do Getsêmani e o Monte do Templo, são dois outros. Um mapa cronológico da Bíblia Sagrada, lado a lado com um atlas relativo a acontecimentos nela narradas. Sem falar em um mundo de documentários com narrativa acadêmica erudita porém tornada de fácil assimilação por religiosos ou leigos.

O sagrado projeto, o sonho de Nelson Saba tornou-se realidade graças aos esforços de uma equipe de profissionais de alto gabarito. Uma equipe de 20 pessoas, trabalhando em tempo integral, filmando e fotografando, merecia um mural especial só para ela. Para não falar, mas falando, do mundo de gente compilando textos e desenvolvendo tecnologia.

A campanha publicitária destaca-se pelo mesmo entusiasmo. Incita, no melhor dos sentidos, aos compradores em potencial a "mergulharem no mundo da Bíblia" além de afirmar que a companhia Glo colocará o vídeo em DVD de alta definição à venda online.

Nos comerciais, adotaram uma linguagem moderna e desinibida. O produto é "kinda cool" (não confundir com álbum clássico de Miles Davis), ou seja, para nós, "sobre o quente" e também "just feels right", quer dizer, "tem um jeito certinho", traduzindo livremente, bem livremente.

No finzinho, o quase slogan e apelo da campanha: "em vez de apenas ler a Bíblia, você a vê e sente". Acrescido de um "get it" o qual, por motivos não religiosos, mas de bom gosto, recuso-me terminantemente a traduzir, já que um demônio poderia vir e me tentar a sapecar lá um "vai nessa".

Sr. Nelson Saba: uma pergunta com uma sugestão embutida: e o Corão? Vale ou não uma informatizada?

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