Itamaraty prejudica interesses dos EUA no Brasil, diz documento

Wikileaks vaza telegramas da embaixada dos EUA que revelam divergências entre ministro da Defesa Nelson Jobim e Itamaraty

iG São Paulo |

Correspondências de diplomatas americanos vazadas pelo site WikiLeaks indicam que Washington considera que Itamaraty adota uma " inclinação antiamericana ". Em um documento enviado pelo então embaixador em Brasília, Clifford Sobel, em março de 2008, a relação entre Brasil e EUA é descrita como uma "cooperação amigável, mas não uma amizade forte". 

"Enquanto as relações entre EUA e Brasil são, em geral, amigáveis, às vezes o governo americano encontra grandes dificuldades em ganhar cooperação de políticos graduados em temas de interesse para os EUA. A dificuldade é mais perceptível no Ministério de Relações Exteriores (MRE), que mantém uma 'inclinação antiamericana' e tentou bloquear o aumento das relações entre Departamento de Defesa (americano) e o Ministério de Defesa", revela o documento. 

Em correspondência datada de 25 de janeiro de 2008, o então embaixador dos EUA em Brasília, Clifford Sobel, relata um almoço que teve com o ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, mantido no cargo pela presidente eleita Dilma Rousseff e descrito como "talvez um dos mais confiáveis líderes do Brasil".

No almoço, o ministro teria dito a Sobel que o então secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, "'odeia os EUA' e trabalha para criar problemas na relação (entre os dois países)". Nesta terça-feira, a assessoria do Ministério da Defesa divulgou um comunicado afirmando que Jobim ligou para Pinheiro Guimarães, atual ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, para desmentir as afirmações atribuídas a ele no documento vazado pelo WikiLeaks .

Acordo de Defesa

Ao condenar a resistência do Itamaraty em relação a acordos de interesse americano, em documento enviado em janeiro de 2008, o embaixador americano conta que Jobim teria interesse em assinar um Acordo de Cooperação de Defesa (DCA, na sigla em inglês), durante uma visita a Washington, datada de março de 2008, mas enfrentou resistência do Ministério das Relações Exteriores.

Ao mencionar o acordo bilateral, Sobel afirma que o presidente Lula terá de decidir entre as posições de um "inusualmente ativo ministro da Defesa interessado em desenvolver laços mais próximos com os EUA e um Ministério das Relações Exteriores firmemente comprometido em manter controle sobre todos os aspectos da política internacional e continuar a ter uma certa distância entre Brasil e EUA".

Sobel conclui que "'embora existam boas perspectivas para melhorar nossa relação na área de Defesa com o Brasil, a obstrução do Itamaraty continuará um problema" e reconhece que o ministro da Defesa brasileiro representa uma "ameaça à histórica supremacia do Itamaraty em todas as áreas da política externa".

Em telegrama de fevereiro de 2008, o embaixador americano relata que o ministro da Defesa brasileiro compartilha da mesma preocupação de Washington em relação ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, mas acredita que isolar a Venezuela poderia levar a um risco maior de instabilidade entre os países da região. A sugestão dada por Jobim de não isolar Caracas é criticada pelo diplomata como a "tradicional política brasileira de ser amigo de todo mundo".

Infraero

Além da política externa brasileira, o então embaixador em Brasília teria conversado com Jobim sobre investimentos estrangeiros na aviação civil brasileira. Ao discutir a operadora Infraero, o ministro reconheceu que o setor tem tantos problemas de administração que "será preciso mais tempo antes de ele conseguir abrir o setor para investidores estrangeiros", diz o documento de 24 de janeiro de 2008.

As informações estão em seis documentos divulgados nesta terça-feira pelo WikiLeaks, que teve acesso a 1.947 telegramas diplomáticos enviados pela embaixada americana em Brasília entre 1989 e 2010.

Segundo o WikiLeaks, desse total, 54 são classificados como secretos e 409 como confidenciais. Além da documentação de Brasília, há 12 do consulado do Recife, 119 do Rio de Janeiro e 778 de São Paulo. Os documentos fazem parte de mais de 250 mil telegramas diplomáticos a que o site teve acesso e começou a vazar no domingo.

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