Itamaraty prejudica interesses dos EUA no Brasil, diz documento

Wikileaks vaza telegramas da embaixada dos EUA que revelam divergências entre ministro da Defesa Nelson Jobim e Itamaraty

iG São Paulo | 30/11/2010 14:58 - Atualizada às 19:28

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Correspondências de diplomatas americanos vazadas pelo site WikiLeaks indicam que Washington considera que Itamaraty adota uma "inclinação antiamericana". Em um documento enviado pelo então embaixador em Brasília, Clifford Sobel, em março de 2008, a relação entre Brasil e EUA é descrita como uma "cooperação amigável, mas não uma amizade forte". 

"Enquanto as relações entre EUA e Brasil são, em geral, amigáveis, às vezes o governo americano encontra grandes dificuldades em ganhar cooperação de políticos graduados em temas de interesse para os EUA. A dificuldade é mais perceptível no Ministério de Relações Exteriores (MRE), que mantém uma 'inclinação antiamericana' e tentou bloquear o aumento das relações entre Departamento de Defesa (americano) e o Ministério de Defesa", revela o documento. 

Em correspondência datada de 25 de janeiro de 2008, o então embaixador dos EUA em Brasília, Clifford Sobel, relata um almoço que teve com o ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, mantido no cargo pela presidente eleita Dilma Rousseff e descrito como "talvez um dos mais confiáveis líderes do Brasil".

No almoço, o ministro teria dito a Sobel que o então secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, "'odeia os EUA' e trabalha para criar problemas na relação (entre os dois países)". Nesta terça-feira, a assessoria do Ministério da Defesa divulgou um comunicado afirmando que Jobim ligou para Pinheiro Guimarães, atual ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, para desmentir as afirmações atribuídas a ele no documento vazado pelo WikiLeaks.

Acordo de Defesa

Ao condenar a resistência do Itamaraty em relação a acordos de interesse americano, em documento enviado em janeiro de 2008, o embaixador americano conta que Jobim teria interesse em assinar um Acordo de Cooperação de Defesa (DCA, na sigla em inglês), durante uma visita a Washington, datada de março de 2008, mas enfrentou resistência do Ministério das Relações Exteriores.

Ao mencionar o acordo bilateral, Sobel afirma que o presidente Lula terá de decidir entre as posições de um "inusualmente ativo ministro da Defesa interessado em desenvolver laços mais próximos com os EUA e um Ministério das Relações Exteriores firmemente comprometido em manter controle sobre todos os aspectos da política internacional e continuar a ter uma certa distância entre Brasil e EUA".

Sobel conclui que "'embora existam boas perspectivas para melhorar nossa relação na área de Defesa com o Brasil, a obstrução do Itamaraty continuará um problema" e reconhece que o ministro da Defesa brasileiro representa uma "ameaça à histórica supremacia do Itamaraty em todas as áreas da política externa".

Em telegrama de fevereiro de 2008, o embaixador americano relata que o ministro da Defesa brasileiro compartilha da mesma preocupação de Washington em relação ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, mas acredita que isolar a Venezuela poderia levar a um risco maior de instabilidade entre os países da região. A sugestão dada por Jobim de não isolar Caracas é criticada pelo diplomata como a "tradicional política brasileira de ser amigo de todo mundo".

Infraero 

Além da política externa brasileira, o então embaixador em Brasília teria conversado com Jobim sobre investimentos estrangeiros na aviação civil brasileira. Ao discutir a operadora Infraero, o ministro reconheceu que o setor tem tantos problemas de administração que "será preciso mais tempo antes de ele conseguir abrir o setor para investidores estrangeiros", diz o documento de 24 de janeiro de 2008.

As informações estão em seis documentos divulgados nesta terça-feira pelo WikiLeaks, que teve acesso a 1.947 telegramas diplomáticos enviados pela embaixada americana em Brasília entre 1989 e 2010.

Segundo o WikiLeaks, desse total, 54 são classificados como secretos e 409 como confidenciais. Além da documentação de Brasília, há 12 do consulado do Recife, 119 do Rio de Janeiro e 778 de São Paulo. Os documentos fazem parte de mais de 250 mil telegramas diplomáticos a que o site teve acesso e começou a vazar no domingo.

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