Itália protesta contra decisão brasileira no caso Battisti

A Itália convocou o embaixador do Brasil, Adhemar Gabriel Bahadian, para protestar contra a decisão da justiça brasileira de conceder asilo político ao ex-ativista italiano de extrema-esquerda Cesare Battisti, indicou nesta quarta-feira a chancelaria italiana.

AFP |

O embaixador foi convocado pelo secretário-geral do ministério das Relações Exteriores da Itália, Giampiero Massolo, a pedido do chanceler Franco Frattini.

O ministro da Justiça do Brasil, Tarso Genro, havia decidido na terça-feira conceder estatuto de refugiado a Battisti, de 54 anos, ex-dirigente dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) que, mesmo ausente, foi condenado na Itália à prisão perpétua por quatro homicídios cometidos entre 1977 e 1979.

A Itália expressou a Bahadian "a indignação unânime de todas as forças políticas parlamentares, assim como da opinião pública e dos familiares das vítimas" em relação à decisão adotada pelo governo brasileiro, segundo um comunicado da chancelaria.

Além disso, a entidade manifestou "perplexidade diante das razões pelas quais a medida foi adotada", acrescenta a nota.

Battisti fugiu da Itália em 1981, refugiando-se na França no início dos anos 90. Lá, tornou-se um célebre escritor de romances policiais.

Em 2004, Battisti escapou para o Brasil quando a França decidiu aprovar o pedido de extradição feito pela Itália, sendo detido em 2007 no Rio de Janeiro.

Mais cedo, nesta quarta-feira, o ministério italiano das Relações Exteriores havia pedido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que reconsiderasse a decisão do ministro Tarso Genro.

"A Itália faz um pedido ao presidente Lula para que sejam tomadas todas as iniciativas possíveis, dentro da cooperação judicial internacional na luta contra o terrorismo, para uma revisão da decisão judicial adotada", afirma o comunicado da chancelaria.

O ministério manifesta também sua "viva surpresa" e "lamenta profundamente" a decisão do ministro da Justiça do Brasil.

"Cesare Battisti é um terrorista responsável por crimes muito graves, que nada têm a ver com o estatuto de refugiado político", destaca a nota da chancelaria italiana.

Battisti, no entanto, alega ser inocente dos crimes a ele atribuídos.

O secretário de Estado do Interior italiano, Alfredo Mantovano, denunciou como "grave ofensa" a decisão do Brasil de conceder asilo político a Cesare Battisti - "um terrorista autor de várias mortes" - e negar sua extradição para a Itália, segundo a agência Ansa.

"O governo italiano não pode aceitar tal decisão, principalmente em respeito às vítimas e seus familiares", criticou Mantovano.

"É uma decisão grave porque existe o temor concreto de que seja liberado, já que está detido no Brasil, e ofensiva, porque se considera que a Itália o persegue politicamente, o que é um insulto ao nosso sistema democrático", declarou Mantovano.

Vários membros do governo conservador reagiram com indignação contra a decisão da justiça brasileira, entre eles Maurizio Gasparri, porta-voz no Senado do partido governante Povo da Liberdade, que expressou "desconcerto e dor" pela decisão brasileira.

Um dos líderes da oposição de esquerda, Piero Fassino, do Partido Democrático, considerou a decisão do Brasil "equivocada".

"O processo a que Battisti foi submetido na Itália não foi por crimes políticos e sim por crimes muito mais graves, de sangue, que provocaram vítimas. Foi protagonista da antiga época do terrorismo e seria justo que os magistrados brasileiros tivessem maior consciência do que fazem".

Para Fassino, "tanto o Brasil como a França avaliaram de maneira errada os crimes ligados ao terrorismo político", em uma referência também ao caso de Marina Petrella, ex-integrante das Brigadas Vermelhas que a França se negou recentemente a extraditar para a Itália por questões de saúde.

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