Israel receberá com todas as honras o Papa Bento XVI, mas sem o calor que marcou a visita, há nove anos, de seu predecessor, João Paulo II, considerado com mais empatia em relação aos judeus.

"Aqui, indaga-se sobre suas motivações. Ele é visto como radical e conservador. Nada a ver com João Paulo II", afirma à AFP Yaacov Katz, professor de sociologia política da Universidade Bar-Ilan de Tel-Aviv.

"Sua visita é muito importante, mas não pode ser comparada à de seu predecessor, um acontecimento sem precedentes", comenta o rabino David Rosen, um negociador do "Acordo fundamental" assinado em 1993 sobre o estabelecimento, no ano seguinte de relações diplomáticas entre o Vaticano e Israel.

Ao contrário de João Paulo II, que se tornou "o amigo dos judeus" em 27 anos de pontificado, Bento XVI, 81 anos, vem sendo motivo de questionamentos, em Israel, onde é esperado no dia 11 de maio, vindo da Jordânia.

Sua peregrinação de cinco dias à Terra Santa o levará aos principais locais venerados pela cristandade, pelo judaísmo e Islã.

O pontífice quer demonstrar seu apoio aos cristãos da Terra Santa, transmitindo, com sua presença, mensagem de paz e de diálogo inter-religioso, numa região considerada sagrada pelas três fés monoteístas e dilacerada por um interminável conflito.

"Atrás dele, haverá mais e mais pessoas que vão se entusiasmar para conhecer Israel", alegrou-se Rafi Ben Hur, vice-diretor do ministério israelense de Turismo.

O país acolheu no ano passado três milhões de visitantes, dos quais um terço de peregrinos. Um maná ainda mais apreciado porque Bento XVI pretende fazer da viagem à Terra Santa uma passagem obrigatória para todo o vigário de São Pedro.

O Estado hebreu conta, também, com esta visita, melhorar sua imagem manchada pela sangrenta ofensiva militar (27 de dezembro a 18 de janeiro) na Faixa de Gaza.

Muitos israelenses lembram, no entanto, a "personalidade problemática" do papa, principalmente seu papel, embora forçado, na Juventude hitlerista, e seus passos em falso, políticos ou teológicos.

Ele também desencadeou enorme polêmica, levantando a excomunhão do bispo fundamentalista Richard Williamson, que negou a importância das câmaras de gás. Para contornar a controvérsia, Bento XVI condenou vivamente, em seguida, a Shoah, o Holocausto, qualificando-a de "crime contra Deus e a humanidade".

Mas há outras questões, como o processo de beatificação de Pio XII. O Memorial Yad Vashem de Jerusalém consagrado à Shoah acusa este papa (1939-1958) de passividade ante o genocídio nazista.

Segundo Sergio Minerbi, especialista israelense do Vaticano, Bento XVI considerou a possibilidade de reintroduzir "a oração pela conversão dos judeus" que remonta ao século XVI. Num gesto e pacificação, o papa expurgou este texto, recitado em latim, na Sexta-feira Santa, suprimindo as palavras "cegueira dos judeus".

A exemplo de João Paulo II, de quem reivindica a herança espiritual, Bento XVI considera os judeus como "irmãos mais velhos". Grande conhecedor do judaísmo, prefaciou o documento da Comissão bíblica pontifical "sobre o Povo Judeu e suas Santas Escrituras na Bíblia cristã".

Logo depois de escolhido, visitou a sinagoga de Colônia, na Alemanha, encontrando-se com representantes das comunidades judaicas de Washington e Nova York, e se recolheu no campo de extermínio nazista de Auschwitz.

Na época em que era cardeal de Regensburg, o então Monsenhor Joseph Ratzinger viajou com frequência a Israel para trabalhar na conclusão do "Acordo fundamental".

Mas 16 anos depois, Israel e o Vaticano não conseguiram ainda assinar a parte econômica deste texto que fixa o estatuto jurídico e fiscal das instituições da Igreja católica na Terra Santa.

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