Israel, EUA e UE pressionam palestinos a desistir de adesão à ONU

Autoridades israelenses fazem ameaças para impedir campanha pelo reconhecimento do Estado palestino nas Nações Unidas

iG São Paulo |

AP
A chanceler da UE, Catherine Ashton, durante reunião em Jerusalém com o chanceler de Israel
Autoridades israelenses, americanas e europeias aumentaram a pressão sob o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, para tentar impedir a campanha pelo reconhecimento do Estado palestino na ONU . Abbas deve lançar a iniciativa durante a Assembleia Geral da organização, na semana que vem.

O ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, advertiu que se os palestinos obtiverem o reconhecimento da ONU "as implicações serão duras e graves".

O vice-ministro das Relações Exteriores de Israel, Danny Ayalon, afirmou que "a declaração unilateral de um Estado palestino significará o cancelamento de todos os acordos", em referência aos pactos assinados por Israel e a Organização de Libertação da Palestina (OLP), como os de Oslo, que levaram à criação da ANP.

Ayalon também mencionou a possibilidade de Israel declarar a anexação dos blocos de assentamentos israelenses na Cisjordânia "se os palestinos desrespeitarem suas obrigações".

Segundo o site de notícias Ynet, fontes oficiais do governo israelense disseram que, "em represália às medidas unilaterais dos palestinos, Israel poderá causar danos significativos à economia da ANP" e ameaçaram interromper a transferência de taxas e impostos para o governo palestino.

União Europeia e EUA

Nesta quarta-feira, a Alta Representante para as Relações Exteriores da União Europeia (UE), Catherine Ashton, teve uma reunião com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, na tentativa de reativar as negociações de paz no Oriente Médio antes que a ONU receba o pedido palestino.

Integrantes da delegação europeia que não quiseram ser identificadas disseram que a conversa foi centrada no processo de paz, mas não deram detalhes sobre uma possível iniciativa diplomática de última hora para evitar ou suavizar o conteúdo da proposta apresentada pelos palestinos.

Ashton, que chegou na noite de terça-feira a Jerusalém, também reuniu-se com o ministro israelense da Defesa, Ehud Barak. "A reunião, que durou uma hora, foi centrada nas relações com os palestinos e na situação na região", indicou um comunicado divulgado pelo gabinete de Barak.

Na terça-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmou que dois enviados do governo Obama retornarão ao Oriente Médio para tentar dissuadir os palestinos de apresentar o projeto. "Nos próximos dias, enviarei à região David Hale (enviado americano para o Oriente Médio) e (o conselheiro especial do presidente Barack Obama) Dennis Ross", declarou.

Os dois diplomatas se reunirão com Netanyahu e Abbas. A secretária de Estado disse que ela mesma intensificou os contatos para tentar impedir que Abbas apresente sua solicitação na Assembleia Geral da ONU. Além disso, nesta quarta-feira, dois legisladores americanos advertiram que o Congresso americano poderá retirar seu apoio econômico à ANP caso coloque em prática sua intenção de solicitar o reconhecimento de um Estado palestino na ONU.

Assembleia Geral

Apesar das pressões por parte de Israel, porta-vozes do presidente Abbas anunciaram que o plano de pedir o reconhecimento da ONU continua de pé. Segundo o porta-voz Nabil Abu Rodeina, Abbas deverá discursar na Assembleia Geral da ONU no dia 23.

O pedido palestino deverá ser votado pela Assembleia Geral no inicio de outubro e, de acordo com avaliações de analistas locais, pelo menos 140 dos 193 países membros das Nações Unidas deverão apoiar o reconhecimento do Estado palestino. Os EUA já prometeram a Israel que utilizarão seu poder de veto no Conselho de Segurança contra a iniciativa, o que deve fazer com que o Estado da Palestina não possa ser aceito como membro integral da ONU.

Abbas, no entanto, disse que vai em frente com os planos porque uma votação da maioria dos países da Assembleia Geral em favor da independência "conferirá aos palestinos uma posição diplomática mais forte para negociar com Israel".

Fronteiras de 1967

Para Mohamad Shtayeh, uma das figuras centrais da liderança da OLP e do partido Fatah, a decisão do presidente Abbas de se dirigir à ONU "decorre do unilateralismo israelense".

Shtayeh deverá acompanhar Abbas a Nova York. Segundo ele, “os palestinos levarão sua luta de volta ao lugar onde tudo começou - a Assembleia Geral da ONU", em referência à decisão da ONU de 1947 sobre a partilha, segundo a qual a Palestina, que então se encontrava sob controle britânico, seria dividida entre um Estado árabe e um Estado judaico.

A OLP, reconhecida internacionalmente como representante do povo palestino, defende o estabelecimento de um Estado palestino nos territórios ocupados por Israel durante a guerra de 1967 - Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental.

Netanyahu rejeitou a proposta do presidente americano, Barack Obama, de que as negociações de paz entre israelenses e palestinos fossem baseadas nas fronteiras de 1967. O premiê israelense também se negou a estender o congelamento da construção dos assentamentos na Cisjordânia, onde moram cerca de 300 mil colonos israelenses.

Em setembro de 2010, Abbas anunciou que não voltaria à mesa de negociações se Israel não prosseguisse com o congelamento dos assentamentos e não aceitasse a criação do Estado palestino nas fronteiras anteriores à guerra de 1967.

Durante esse último ano, de paralisia total do processo de paz com Israel, Abbas decidiu recorrer à ONU. A posição oficial do governo de Israel é de que a liderança palestina deveria voltar à mesa de negociações "sem condições prévias".

Com AFP, EFE e BBC Brasil

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