Irmandade muçulmana anuncia seriado sobre seu fundador

A Irmandade Muçulmana do Egito, maior e mais antigo grupo político islâmico, anunciou na última sexta-feira a produção de uma série televisiva de 30 episódios sobre a vida de seu fundador, o egípcio Hassan al-Banna. O controverso movimento sunita, que possui ramificações em vários países árabes, é hoje a maior oposição ao governo do presidente egípcio Hosni Mubarak, com deputados no parlamento do país.

BBC Brasil |

Depois de anos de rumores, o movimento confirmou a realização do seriado, mas negou que teria envolvimento na produção. No entanto, todo o roteiro da série foi disponibilizado no site oficial do grupo.

O filho do fundador, Ahmed Seif Hassan al-Banna al-Islam, falou para diversos jornais árabes que os episódios iniciais mostrarão a infância e juventude de seu pai em um vilarejo no norte do Egito.

O seriado também mostrará as atividades políticas de al-Banna, a fundação da Irmandade Muçulmana, em 1928, junto com outros seis amigos, funcionários da Companhia do Canal de Suez, até o assassinato do líder, em 1949.

"As pessoas poderão ver meu pai politicamente ativo em demonstrações contra o mandato britânico e o sua religiosidade", disse al-Islam aos jornais.

Produção
O seriado, entitulado Hassan al-Banna e uma Jornada Importante, custará mais de 3,8 milhões de dólares e será produzido pelo jornalista e deputado da Irmandade Mohsen Radi.

Ele também bancará metade dos custos do projeto e anunciou que abrirá uma conta bancária para aqueles que desejam contribuir com fundos para ajudar na produção da série.

Em entrevista ao jornal egípcio Middle East Times, Radi disse que a vida de Banna foi marcada por confusões, agitação política, mas tolerância em relação aos outros.

"Ele debateu com cristãos, judeus e até mesmo agnósticos e é nosso desejo de mostrar isso para que as pessoas possam entender mais sobre al-Banna e a Irmandade Muçulmana', disse Radi.

Segundo Radi, a opção por um seriado e não por um filme, como havia sido cogitado inicialmente, se deve a dois motivos - os custos de um filme seriam muito maiores e a censura seria mais fácil.

"Apenas três pessoas controlam as salas de cinema no país, e o governo teria mais facilidade em pressioná-los a não exibir um filme", declarou Radi.

Por outro lado, enfatizou o parlamentar, há vários canais de TV que já demosntraram interesse em transmitir a série tão logo esteja completada.

Mesmo asism, Al-Islam declarou que não se mostrará surpreso se o seriado for banido no Egito, devido aos espectos tensos que cercam a Irmandade e o governo egípcio.

O analista político Oussama Safa, diretor do Centro Libanês para Estudos Políticos, disse que haverá grande expectativa quanto ao seriado no mundo árabe.

"A Irmandade combateu vários regimes árabes durante décadas. Os governos da região temem a popularidade do grupo junto às massas", salientou Safa à BBC Brasil.

Polêmica
A Irmandade é um dos grupos mais controversos no mundo árabe. O grupo é visto como partido político e democrático, mas também foi acusado de diversos ataques contra o governo egípcio e estrangeiros nas últimas décadas.

Suas ramificações também colocaram o grupo contra os regimes de outros países árabes, como a Síria e Iraque.

Ao mesmo tempo que é retratada como um grupo político injustamente oprimido pelo governo egípcio, a Irmandade foi acusada de atos violentos.

Safa disse que o grupo islâmico luta pro reformas no Egito, mas desperta muitas desconfianças sobre suas intenções entre os próprios reformistas.

Alguns ativistas seculares no Egito declararam aos jornais que se mostravam céticos em relação ao seriado.

Eles argumentaram que a produção poderia ser uma tentativa da Irmandade Muçulmana de manipular e controlar a oposição no Egito.

"Não podemos confiar neles [Irmandade] e um seriado como este nos faz sentir que estão tentando mudar a percepção das pessoas sobre o movimento deles. Mas isso não funcionará", declarou o ativista Ahmed Abdel Salam, que participou de inúmeros movimentos estudantis por reformas no país.

Safa acredita que mesmo o seriado sendo banido no Egito, ele será visto em vários países, inclusive ocidentais, colocando pressão sobre o governo de Mubarak.

"O Egito vem sofrendo enormes pressões por reformas. Vários membros da Irmandade Muçulmana estão em prisões há anos. Será interessante ver as reações e percepções em relação a esta produção na região".

O movimento islâmico lidera o maior bloco da oposição no país. Em 2005, venceu 88 cadeiras no parlamento egípcio, em que seus membros concorreram como independentes.

O governo lançou, então, uma campanha contra a Irmandade e centenas de seus membros foram presos.

A Irmandade Muçulmana argumentou que estava comprometida com a não-violência e denunciou ações do governo e outros grupos islâmicos no país. Mesmo assim, é considerado um grupo terrorista pelo governo egípcio.

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