Milhares de pessoas participaram de passeata em silêncio, no centro de Dublin, nesta quarta-feira, em solidaridade para com as crianças vítimas de abusos cometidos durante décadas em instituições irlandesas administradas por ordens religiosas católicas.

Os manifestantes levavam sapatos de crianças que depositaram diante do Parlamento "para simbolizar as vidas destruídas nessas instituições" religiosas.

Quatro vítimas que seguiam à frente do cortejo depositaram coroas de flores no local "em memória dos vivos e dos mortos que passaram por essas instituições".

Segundo a polícia, 7.000 pessoas participaram e, segundo o jornal Irish Times elas chegaram a 15.000.

O horror revelado mês passado por um informe da Comissão de Investigação dos Abusos Infantis afetou duramente a Igreja Católica irlandesa, comovendo o país.

O relatório demonstra que os religiosos católicos agrediam, violavam e humilhavam as crianças internadas nas instituições de caridade. O texto definiu os abusos como "endêmicos".

"As crianças viviam em um terror diário, sem saber quando receberiam o golpe seguinte", afirma o documento, que lamenta a cultura do silêncio entre as autoridades.

"As autoridades religiosas sabiam que os abusos sexuais eram um problema persistente em organizações religiosas masculinas", destaca o informe.

A comissão entrevistou mais de 2.000 pessoas que relataram agressões, intimidações e abusos sexuais por parte de sacerdotes e freiras.

Entre 30.000 e 40.000 crianças passaram por esses estabelecimentos. A maioria deles foram internados porque haviam sido abandonados: eram filhos de mães solteiras, ou haviam praticado pequenos roubos.

Em alguns casos, as crianças ingressaram quando tinham apenas dois anos.

"Estes não eram orfanatos, eram gulags", disse à AFP John Kelly, uma das vítimas desses abusos. "Eu não me chamava John Kelly. Era apenas o número 253", disse.

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