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Iraquianos criam pequena Bagdá em subúrbio de Damasco

Ao sul de Damasco, dezenas de milhares de refugiados iraquianos transformaram o bairro de classe pobre de Saida Zeinab em uma réplica de Bagdá. Com medo de voltar a um Iraque tomado por violência, iraquianos sunitas e xiitas lutam para sobreviver na Síria.

BBC Brasil |

Em um restaurante ao sul da capital síria, o sotaque árabe muda radicalmente para o iraquiano. É no local que o advogado Aalat, um iraquiano sunita que deixou o Iraque há dois anos, com medo da violência sectária e a falta de um futuro para seus três filhos, almoça com seus conterrâneos.

Morador de Saida Zeinab, ele trabalha como tradutor para organizaçõees humanitárias que tentam ajudar refugiados iraquianos na Síria.

"Eu tentei retornar ao Iraque no ano passado, mas não agüentei dois meses e voltei para cá por causa da violência", disse Aalat, que era morador de Bagdá.

Desde a invasão ao Iraque, em 2003, por forças de coalizão lideradas pelos Estados Unidos, mais de 2 milhões de iraquianos deixaram o país de 27 milhões de habitantes, segundo estimativas da agência para refugiados da ONU (UNHCR).

"A grande maioria fugiu para os vizinhos Jordânia e Síria, países relativamente pequenos e pobres, que não conseguem manter os iraquianos com serviços sociais, escolas e saúde", disse Sybella Wilkes, do escritório da UNHCR em Damasco.

De acordo com a ONU, cerca de 500 mil iraquianos estão na Jordânia, entre 1,2 milhão e 1,4 milhão na Síria, outros 50 mil no Líbano e cerca de 100 mil estão espalhados por outros países da região.

Para a Europa, rumaram em torno de 20 mil refugiados, muitos deles entrando de forma ilegal. Os Estados Unidos, que lideraram a invasão, receberam um pequeno número - apenas 435, desde 2003.

A ONU fez um apelo por US$ 261 milhões para 2008 com o objetivo de aliviar o problema dos refugiados. O governo dos EUA contribuiu com US$ 83 milhões, mas a campanha continua carente por mais doações.

'Geração perdida'
Muitas famílias eram de classe média em seu país, e hoje lutam para sobreviver nas ruas de Saida Zeinab, chamado de "pequena Bagdá", com setores sunitas e xiitas, mas que convivem sem nenhum incidente registrado.

Alguns têm seus próprios negócios, outros trabalham, clandestinamente, para outros iraquianos ou sírios por um salário muito inferior ao que necessitam.

"Muitos abandonaram suas profissões de professores, advogados ou administradores para vender roupas, sanduíches e outros produtos nas ruas do bairro", completou Wilkes.

Dono de um pequeno mercado de frutas, Mohamed Nassar era gerente de banco em Bagdá. Com a onda de violência entre sunitas e xiitas, há um ano ele deixou o Iraque com sua mulher e seus quatro filhos.

"Meu irmão e um primo foram mortos a tiros por milícias sunitas. Tentei continuar com minha vida, me dizia que eu teria meu país de volta. Mas um dia, com muitas lágrimas nos olhos, decidi deixar minha terra, pois não agüentava mais", declarou ele.

Nassar lamenta que tantas pessoas tiveram seus sonhos destruídos no Iraque e agora passam seus dias em Saida Zeinab convivendo com a incerteza sobre seus destinos.

"Aqui não temos serviços de saúde, assistência social, água e aquecimento. Muitas crianças mal têm oportunidade de freqüentar escolas. Nossos filhos são uma geração perdida, sem futuro e sem sonhos", completou Nassar.

De acordo com a ONU, muitas iraquianas recorreram à prostituição para poder sustentar suas famílias.

Sobrevivência
Em muitos lugares por Saida Zeinab, retratos do presidente sírio Bashar Assad é parte integrante da decoração de mercados, restaurantes, salões de beleza e cafeterias.

Segundo alguns iraquianos, a polícia secreta síria vigia as ruas de perto, mantendo informantes em vários lugares.

"Somos obrigados a colocar a foto do Assad, é parte integrante do doutrinamento, da ideologia do partido sírio Baath", disse Aalat.

"strangeiros que chegam aqui são bem recebidos, mas a polícia fica de olho e é hostil com fotografias."
Em outros lugares, a foto de Assad divide espaço com a do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, ou do clérigo xiita iraquiano Muqtada al-Sadr, líder da milícia Mehdi, que mantém tensa relação com o governo iraquiano e com as forças militares dos EUA.

Aalat disse que a convivência entre sunitas e xiitas é muito melhor que no Iraque. "Aqui estamos unidos por uma causa comum, a da sobrevivência. Não temos condições de transformar este lugar em outro inferno."
Com um fluxo de 40 mil iraquianos que entram na Síria todos os meses, Aalat é pessimista sobre um futuro no Iraque.

"Mesmo com poucas chances, prefiro ficar aqui do que retornar ao meu país. O Iraque terminou para nós."

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