Irã vê na revolta egípcia maior força do Oriente Médio islâmico

Oposição iraniana, porém, espera que mobilização no mundo árabe estimule novas marchas contra governo de Ahmadinejad

iG São Paulo |

O Irã espera que os protestos massivos contra o governo egípcio levem ao surgimento de um Oriente Médio mais islâmico que se posicione contra seus inimigos, Israel e os EUA, disse a República Islâmica na segunda-feira. Para o país persa, os protestos populares na Tunísia, no Egito e em outros países árabes são "uma onda de despertar islâmico" que conduzirá a um Oriente Médio mais próximas às ideias e políticas da República Islâmica.

AP
Egípcio balança bandeira nacional durante protesto no Cairo
O porta-voz do Ministério do Exterior iraniano, Ramin Mehmanparast, ao manifestar a posição oficial do Irã, disse que os povos do Egito e da Tunísia deixaram as potências estrangeiras "perplexas" ao se levantar contra os governos com apoio americano.

"Com (a região) assumindo uma nova forma e com os novos desenvolvimentos, esperamos conseguir ver um Oriente Médio que seja islâmico e poderoso e também resista aos ocupantes sionistas", disse usando o termo adotado pelo Irã para referir-se a Israel, cuja existência o país não reconhece.

Membro de um Governo autoritário, que restringe as liberdades individuais, Mehmanparast não hesitou em apelar ao cinismo quando exigiu ao presidente egípcio, Hosni Mubarak, que ouça a voz do povo.

"O Irã observa atentamente o que acontece no Egito e espera que os responsáveis desse país ouçam a voz do povo muçulmano e respeitem seus desejos razoáveis. As forças de segurança e a polícia devem evitar qualquer atitude violenta contra essa onda de despertar islâmico em forma de movimento popular nesse país", declarou.

Na sexta-feira, o aiatolá Ahmad Khatami, um dos clérigos com mais poder e influência do Irã, disse:"Àqueles que não querem ver a realidade, vou esclarecer que um novo Oriente Médio está nascendo baseado no Islã, na religião e na democracia, com prevalência dos princípios religiosos."

O Irã está em uma situação de impasse com o Ocidente por causa de seu programa nuclear e vê ganhos para sua influência geopolítica na região caso o presidente do Egito, Hosni Mubarak, forte aliado dos EUA e de Israel, seja retirado do poder.

Setores mais radicais do Irã têm elogiado os protestos no Egito, dizendo que são um eco tardio da Revolução Islâmica de 1979 que derrubou o xá Mohamad Reza Pahlevi, líder apoiado pelos Estados Unidos, abrindo caminho para o estabelecimento de um sistema teocrático muçulmano.

Manifestações no Irã

Apesar de o Irã elogiar as mobilizações no mundo árabe, também teme que o levante no Egito possa reavivar uma instabilidade social contrária ao governo, que abalou o país após a contestada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2009. A Guarda Revolucionária, unidade militar de elite, reprimiu os protestos de massa contra uma votação que autoridades insistem ter sido a mais correta em três décadas.

Centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas durante meses para apoiar as reivindicações da oposição reformista, que denunciou uma fraude em massa na apuração dos votos das eleições presidenciais e exigiu igualmente reformas e liberdades no país.

Na sangrenta repressão, vários manifestantes perderam a vida, enquanto milhares foram detidos sob a acusação de conspirar com potências estrangeiras para derrubar o regime da República Islâmica.

"O regime lava as mãos. Eles veem com gosto a possível queda de governos que acusa de conivência com os EUA e Israel", explicou um analista político iraniano sob condição de anonimato.

"Há 30 anos, houve muitos esforços e gastaram-se muito dinheiro e energia para exportar a Revolução Islâmica ao Oriente Médio, sem resultados visíveis, e agora (o regime iraniano) acredita ver o fruto de suas ambições", disse.

Segundo ele, as autoridades da República Islâmica observam a situação como "um enfraquecimento da influência dos Estados Unidos e do Ocidente na região e, portanto, uma oportunidade para aumentar a influência da República Islâmica".

Opinião da oposição

Mas os políticos da oposição no Irã, motivados pelas cenas de "poder do povo" em Túnis e no Cairo, esperam que as manifestações levem os líderes ultraconservadores iranianos a permitir mais liberdade dentro do país.

AFP
Iraniano protesta em Teerã: choques em dezembro foram os piores no país em seis meses (28/12/2009)
O líder opositor Mir-Hossein Mousavi expressou no sábado seu apoio ao povo egípcio e mostrou esperança de que o levante se transforme em um movimento inspirador, que estimule a "queda de todos os regimes opressores".

"Nossa nação respeita, cumprimenta e abraça a revolução da valente nação tunisiana e o direito à revolta dos povos do Egito e do Iêmen. Pedimos a Deus que lhes dê a vitória", afirmou Moussavi.

Seguindo o raciocínio, o ex-ministro comparou os gritos de "Onde está meu voto?" do povo iraniano em junho de 2009 - durante os protestos contra a suposta fraude eleitoral - aos dos egípcios, que atualmente pedem liberdade.

Suas palavras, reproduzidas pelo site "Kalame.com", parecem destacar nas entrelinhas a esperança de que a revolta dos árabes volte a quebrar o medo dos iranianos e a liberar os gritos de liberdade ecoados em 2009.

O analista anônimo, por sua vez, adverte sobre o que ocorreu na Revolução Islâmica de 1979. "Há 30 anos, a oposição laica também saiu às ruas do Irã para reivindicar mais liberdade e democracia, mas no final foram os religiosos que se aproveitaram da conjuntura".

*Com Reuters e EFE

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