Irã usará sanções para manter repressão política

Um ano após protestos pós-eleitorais, movimento opositor perde força e continua reprimido sob acusação de que se alia ao Ocidente

Leda Balbino, iG São Paulo |

Sob o argumento de que os opositores são “agentes do Ocidente e uma ameaça à segurança nacional e ao regime”, o Irã deve usar a quarta rodada de sanções contra seu programa nuclear para manter a pressão sobre os opositores, que há um ano foram duramente reprimidos ao sair às ruas para denunciar como fraude a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. A opinião é de analistas entrevistados pelo iG , para os quais não há sinais de que as sanções impactarão a situação interna do país persa.

“O regime continuará a alegar que a ‘oposição é financiada pelo Ocidente’ e efetivamente se alinha ‘àqueles que querem privar o Irã de seu direito inalienável à tecnologia (nuclear)”, afirmou ao iG o analista em Oriente Médio Alex Vatanka, do Jane’s Information Group e Middle East Institute, ambos em Washington.

A opinião é compartilhada pelo acadêmico Ali Alfoneh, do American Enterprise Institute, um centro de pesquisa na capital americana. “Desde a revolução de 1979, a República Islâmica sistematicamente justifica sua repressão interna como uma resposta às ameaças externas contra o regime”, disse.

Partidários do Movimento Verde, cor da campanha do candidato derrotado Mir Houssein Mousavi, os opositores foram considerados a maior ameaça às autoridades da República Islâmica em seus 30 anos de história – e pagaram um alto preço. Meses de repressão brutal – que incluíram prisões em massa, torturas, julgamentos públicos, execuções, restrição à imprensa interna e externa e bloqueios na internet – acabaram por enfraquecer o movimento.

Um dos motivos para a contenção da "onda verde" foi a prisão de estimados 5 mil opositores, segundo o jornal britânico "The Guardian". De acordo com o diário, pelo menos seis prisioneiros políticos estão no corredor da morte após serem indiciados por “mohareb” (travar guerra contra Deus) por seu suposto papel nas manifestações.

Mortes

Um ano depois da eleição, não há dados oficiais sobre as mortes nos protestos e detenções imediatamente subsequentes, com grupos de oposição as estimando em pelo menos 80 – embora o número possa ser bem maior. “De acordo com minha contagem, publicada em um artigo no TehranBureau.com, há confirmação de 110 mortes”, relatou o professor Muhammad Sahimi, da Universidade da Carolina do Sul.

Rasool Nafisi, acadêmico da Universidade Strayer, na Virgínia, aponta uma estimativa ainda maior. “Alguns dizem que poderiam ser 500 vítimas, mas não há fontes confiáveis sobre a questão”, afirmou.

Segundo relatório publicado nesta semana pela Anistia Internacional, só em 2010 o Irã executou 110 pessoas. Intitulado “Do Protesto à Prisão: Irã Um Ano Após a Eleição”, o relatório, que marca o primeiro aniversário da reeleição de Ahmadinejad, acusa o Irã de usar seu sistema de Justiça para deter e executar prisioneiros e suprimir a dissidência.

De acordo com a organização, a prisão arbitrária de cidadãos comuns se tornou um fenômeno diário, com os presos permanecendo dias, semanas e até meses incomunicáveis sem que seus parentes consigam localizá-los ou saber do que são acusados.

“O segredo em volta dessas prisões torna mais fácil para os interrogadores recorrer à tortura e outras táticas, que incluem estupro e falsas execuções, para extrair ‘confissões’ forçadas que, mais tarde, são usadas como prova em seus julgamentos”, afirma a Anistia, citada pela BBC Brasil.

Preocupado com o renascimento do Movimento Verde, o governo iraniano apertou ainda mais o cerco desde 27 de dezembro, quando confrontos durante o ritual da Ashura – que relembra o martírio de Hussein, o imã mais venerado dos xiitas e neto de profeta Maomé – resultaram em nove mortes. A internet – que possibilitou aos manifestantes se comunicar pelas redes sociais Facebook e Twitter – vem sendo usada pelo governo para monitorar os dissidentes, segundo o "Guardian".

Aniversário da reeleição

Perante a promessa de que os opositores protestariam para marcar o aniversário da contestada reeleição de Ahmadinejad, o governo aumentou a presença das forças de segurança nas ruas e advertiu contra quaisquer atividades neste sábado.

A mostra de que a ameaça parece ter funcionado foi dada quinta-feira, quando Mousavi e Mehdi Karroubi, candidato que ficou em terceiro lugar nas eleições, decidiram cancelar um protesto programado para este sábado . Em comunicado divulgado em sites reformistas e no Facebook, Mousavi e Karroubi disseram que cancelavam a manifestação que divulgavam havia semanas "para salvaguardar as vidas e as propriedades da população".

Mas a verdadeira razão para a desistência seria a pressão que eles sofrem do regime, opinam os analistas. De acordo com o acadêmico Nafisi, os dois líderes do Movimento Verde foram privados de guarda-costas, proibidos de receber visitas e tiveram muitos de seus parentes e assessores presos ou mortos. “O governo decidiu desacreditá-los em vez de prendê-los, temendo que pudessem ganhar ainda mais importância se fossem aprisionados”, disse.

Para Ali Alfoneh, do American Enterprise Institute, outra explicação para o enfraquecimento do Movimento Verde seria o fato de a liderança opositora continuar tendo Teerã como base de atuação, o que a deixa sob controle do Ministério do Interior e com limitado acesso aos meios de comunicação. “O fundador da República Islâmica, o grã-aiatolá Ruhollah Khomeini (líder supremo de 1979 a 1989), organizou a Revolução Islâmica do exílio no Iraque e depois na França, longe do controle dos serviços de segurança do Irã”, contou.

Além disso, afirma Vatanka, no decorrer do último ano Mousavi e Karroubi escolheram não desafiar diretamente o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o que lhes impossibilitou manter mobilizados os que defendem maiores reformas no regime.

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