Irã tenta nova oferta para troca de combustível

Fontes ligadas ao processo diplomático acreditam que Irã busca ganhar tempo para evitar sanções da ONU

iG São Paulo |

O Irã fez uma outra contra-proposta para um paralisado acordo com a ONU sobre combustível atômico que tem o objetivo de amenizar as tensões em torno do programa nuclear iraniano. Mas as condições propostas por Teerã seguem sendo consideradas inaceitáveis para as grandes potências, disseram fontes.

A tentativa do Irã é parte de uma campanha contra uma nova rodada de sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) por conta dos trabalhos atômicos da República Islâmica, que potências ocidentais suspeitam ter o objetivo de fabricar armas nucleares, o que o Irã nega.

Proposta de troca

Grandes potências mundiais fizeram um apelo ao Irã para que aceite um plano da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para entregar 1.200 quilos de urânio de baixo enriquecimento - o suficiente para uma única bomba se purificado em um nível mais elevado - ao exterior para que seja transformado em um reator para pesquisas médicas.

A proposta, apoiada pelos Estados Unidos, pela França e pela Rússia, tem o objetivo de dar mais tempo a negociações diplomáticas com o Irã. O Irã concordou em princípio com o acordo em outubro, mas depois exigiu mudanças como uma troca simultânea em solo iraniano, condições que outras partes do acordo consideraram inaceitáveis.

Em reunião com o chefe da AIEA, Yukiya Amano, no domingo, o Irã fez uma nova contra-proposta, mas não tratou diretamente do plano original, disseram fontes com conhecimento das negociações.

O chanceler iraniano Manouchehr Mottaki voltou a propor uma troca em solo iraniano, usando uma quantidade menor de urânio de baixo enriquecimento do que o previsto na proposta da AIEA. Essa quantidade pode ser trocada simultaneamente por metade do equivalente em combustível para o reator, com o restante do combustível vindo depois, disse ele a Amano,

As fontes disseram não estar claro se, sob essa proposta, o urânio de baixo enriquecimento deixará o Irã, condição-chave para o acordo da AIEA. "De novo eles estão tentando vir com mudanças no acordo de troca. Eles estão tentando ganhar tempo, mas sabem que essas condições não serão aceitas", disse uma fonte.

Brasil busca via diplomática

© AP
Amorim entrega carta do presidente Lula a Mahmoud Ahmadinejad na terça-feira
O ministro brasileiro Celso Amorim afirmou na última terça-feira, em Teerã, que o Brasil tenta impedir a aprovação de novas sanções contra o Irã, defendendo maior flexibilidade por parte das potências ocidentais; ao mesmo tempo, pediu garantias ao governo da república islâmica de que seu programa nuclear não tem finalidades militares.

"Buscamos um meio para impedir as sanções contra o Irã. Pensamos que as sanções não seriam eficazes e apenas afetariam a população, e em particular as classes desfavorecidas", disse. Amorim, que chegou segunda-feira ao Irã, encontrou-se na terça com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, antes da visita prevista ao Irã nos dias 16 e 17 de maio do presidente brasileiro Luiz Inacio Lula da Silva.

Durante entrevista coletiva, Amorim afirmou que "o Irã tem direito a atividades nucleares pacíficas, mas a comunidade internacional deve receber garantias de que não haverá violação e desvio (da tecnologia nuclear) para objetivos militares. Às vezes existem algumas dúvidas, e o Brasil afirma que é preciso eliminar todas as ambiguidades", disse.

Amorim reiterou que as sanções seriam estéreis e afirmou, em entrevista à agência oficial iraniana Irna que, para evitar este extremo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está disposto a estudar a possibilidade de uma troca de urânio no território brasileiro, mas deixou claro que até o momento ninguém fez este pedido.

Tensão nuclear

Grande parte da comunidade internacional, sob a liderança dos Estados Unidos, acusa o regime dos aiatolás de ocultar, sob seu programa civil, outro de natureza clandestina e ambições bélicas, cujo objetivo seria adquirir um arsenal atômico, acusação rejeitada por Teerã.

A polêmica aumentou no final do ano passado, depois de o Irã rejeitar uma oferta dos EUA, Reino Unido e Rússia para enviar seu urânio enriquecido a 3,5% ao exterior e recuperá-lo depois enriquecido a 20%, nas condições que diz precisar para manter em operação um reator em Teerã.

Perante a falta de acordo, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ordenou o início do enriquecimento a 20%, apesar das advertências internacionais. Desde então, o governo americano busca aprovar uma nova rodada de sanções internacionais para tentar frear o polêmico programa nuclear iraniano.

Neste ano, o Brasil assumiu uma das 15 cadeiras do Conselho de Segurança da ONU, órgão responsável pelas possíveis sanções ao regime iraniano. A esse respeito, o presidente do Parlamento iraniano voltou na segunda a culpar as grandes potências pela falta de acordo e insistiu que chegar a uma solução é "simples".

"Polemizar com dados irreais não terá efeito algum sobre a vontade do povo iraniano. As grandes potências tentam complicar esse assunto para favorecer assim seus próprios interesses políticos", criticou.

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