Irã questiona 'consequências' de oferta de asilo a condenada

"Será que o Brasil terá de ter um lugar dos criminosos de outros países em seu território?", questiona a embaixada do Irã no País

iG São Paulo |

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Reprodução de imagem de TV mostra iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani durante "confissão" de participação em assassinato de marido (12/08/2010)
A embaixada do Irã no Brasil divulgou nesta segunda-feira uma declaração em que afirma que o governo do país considerou a oferta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de asilo à iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani "um pedido de um país amigo, baseado nos sentimentos puramente humanitários", mas questiona as "consequências" da oferta brasileira e pergunta se o "Brasil precisará ter um local para criminosos de outros países".

"Quais são as consequências desse tipo de tratamento com os criminosos e assassinos? Será que esse ato não promoverá e não incentivará criminosos a praticar crimes?", diz o comunicado. "Será que a sociedade brasileira e o Brasil têm que ter, no futuro, um lugar dos criminosos de outros países em seu território?"

Por meio do documento, a representação diplomática iraniana em Brasília afirma que, além de adultério, Sakineh é acusada pela morte de seu marido, o que seria "o crime principal" que pesa contra ela. "A senhora Sakineh Mohammadi, há alguns anos, praticou um crime de homicídio contra seu marido , pelo qual foi processada e presa. Por essa razão, o crime principal praticado pela cidadã iraniana é de homicídio", diz a nota.

A nota da embaixada foi divulgada depois de o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, rejeitar a oferta de Lula de receber Sakineh no Brasil. Ahmadinejad justificou sua decisão dizendo que "não há necessidade de criar problemas" para o líder brasileiro.

Confissão

Sakineh, de 43 anos, está presa no Irã desde 2006. Inicialmente ela foi acusada de adultério e condenada a uma sentença de apedrejamento . Posteriormente, a sentença de apedrejamento foi suspensa . Sakineh, no entanto, está sendo acusada de participação no assassinato de seu marido e ainda pode ser executada por enforcamento .

Na semana passada, a TV estatal iraniana levou ao ar uma suposta entrevista com Sakineh, em que a iraniana admite ter conspirado para matar o marido. A "confissão" foi condenada pela Anistia Internacional , organização de defesa dos direitos humanos. De acordo com a ONG, "confissões desse tipo (transmitidas pela televisão) têm sido repetidamente usadas pelas autoridades iranianas para incriminar pessoas que estão sob custódia".

Em entrevista à BBC, um dos advogados de Sakineh, Mohammad Mostafaie, que está exilado na Noruega, afirmou que o programa foi "manipulado" e que a ré foi "ameaçada" para confessar. "Eles transmitem em sua maioria mentiras e desinformação. Eu sei que ela (Sakineh) falou essas coisas porque foi ameaçada", disse o advogado. 

Troca de mensagens

Brasil e Irã trocaram várias mensagens nas últimas semanas pelo caso de Sakineh. Sua sentença à morte por apedrejamento causou comoção em todo o mundo e levou o presidente Lula, que mantém um diálogo aberto com o Irã, a oferecer asilo no Brasil. "Se minha amizade e respeito que tenho pelo presidente do Irã (Mahmoud Ahmadinejad) e pelo povo iraniano valem algo, se essa mulher causa mal-estar, poderíamos recebê-la no Brasil", disse Lula.

O Irã, por meio de porta-vozes oficiais, descartou aceitar a oferta, e depois disse que o Brasil não teria feito um pedido formal para receber a mulher, ponto que foi negado pelo chanceler Celso Amorim.

*AFP e BBC

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