Irã provoca potências ao anunciar enriquecimento de urânio a 20%

Teerã, 8 fev (EFE).- O Irã anunciou oficialmente hoje que amanhã a central nuclear de Natanz começará a enriquecer urânio a 20%, mas ressaltou que interromperá a produção de combustível nuclear caso chegue a um acordo com as potências ocidentais.

EFE |

Ao comentar o assunto, o diretor da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, disse que a medida faz parte de "um projeto de longo prazo" e "não se limitará à produção de combustível para o reator civil de Teerã".

Segundo o funcionário, o Irã comunicou por carta a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que respondeu dizendo que o enriquecimento a 20% terá de ser vistoriado por inspetores internacionais.

"O enriquecimento de urânio para produzir combustível nuclear é um projeto de longo prazo e não se limitará às necessidades do reator de Teerã", afirmou Salehi.

"O Irã ainda espera que o diálogo seja bem-sucedido. Se for assim, interromperemos a produção de combustível", acrescentou.

O anúncio foi entendido como uma provocação a mais na queda-de-braço que o regime dos aiatolás mantém com algumas das potências mais influentes do planeta.

Países como Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido acusam Teerã de ocultar um programa nuclear de fins militares, cujo objetivo seria a aquisição de um arsenal nuclear.

As denúncias são negadas pela República Islâmica. Mas o conflito se agravou no fim do ano passado, depois que Teerã disse não a uma proposta de Washington, Paris e Moscou para enviar seu urânio a 3,5% para o exterior e pegá-lo de volta enriquecido a 20%, nas condições necessárias para manter funcionando o reator nuclear civil da capital.

O Irã diz ser a favor da troca, mas exige que esta aconteça em território nacional e seja feita de maneira escalonada, condições que as outras nações não parecem estar dispostas a aceitar.

Após meses de negociação, o presidente iraniano surpreendeu ontem ao dizer que tinha mandado especialistas de seu país implementar seu polêmico projeto, decisão que, segundo suas palavras, não significa uma renúncia ao diálogo.

Dias antes, em uma aparente guinada de Governo, Ahmadinejad disse que seu país não tinha problemas em enviar o urânio para fora do país.

Essa política de ambiguidade, inicialmente, conseguiu frear o consenso que o presidente americano, Barack Obama, queria estabelecer: o de que seria preciso impor sanções mais severas ao Irã.

A China, país que compra da República Islâmica um terço do petróleo que consome, acha que as palavras do líder iraniano deixam uma porta aberta para uma solução negociada.

A Rússia, por sua vez, hesita entre seus laços com Ocidente e os grandes interesses que mantém em um país com o qual historicamente teve uma relação difícil.

No domingo, logo após o discurso de Ahmadinejad, o secretário de Defesa americano, Robert Gates, voltou a apostar na adoção de medidas duras contra Teerã e pediu unidade "para que as pressões sobre o Irã e as sanções tenham o efeito desejado".

Enquanto a tensão política cresce, as incertezas sobre o grau de desenvolvimento nuclear iraniano se mantêm.

Embora aparentemente o Irã possua a tecnologia necessária para enriquecer urânio a 20%, os analistas dizem ter dúvidas da capacidade do país de encapsular o combustível e injetá-lo nos reatores.

O regime iraniano, como afirmou hoje o próprio Ahmadinejad, insiste que não há como conter seu progresso atômico, que lhe é de direito como país signatário do Tratado de Não- Proliferação Nuclear.

Nessa linha, Salehi citou nesta segunda-feira outro grande projeto nuclear iraniano que desperta inquietação nas potências ocidentais: a construção de dez centrais de enriquecimento de urânio.

Em declarações à TV estatal "Alalam", o iraniano ressaltou que as usinas começarão a sair do papel "ao longo do novo ano" persa, que começa em 21 de março. EFE jm/sc

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