Irã não muda discurso e diz esperar medidas concretas dos EUA

Javier Martín. Teerã, 20 mar (EFE).- Depois do tom conciliador adotado desde a chegada de Barack Obama à Casa Branca, o Governo do Irã respondeu hoje ao presidente americano que recebeu bem suas palavras, mas que não são suficientes, já que espera medidas concretas, incluindo desculpas oficiais.

EFE |

"Os Estados Unidos devem admitir seus erros históricos", disse hoje à Agência Efe Ali Akbar Javanfekr, considerado um dos assessores mais próximos ao presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

Ahmadinejad manifestou hoje seu desejo de que o início do Ano Novo persa e a chegada da primavera (hemisfério norte) sirvam para que "a justiça substitua o ódio e a discriminação no cenário internacional".

Em discurso por ocasião da festa do Noruz, primeiro dia do ano segundo o calendário solar persa, Ahmadinejad ressaltou que a "humanidade deve construir um mundo caracterizado pela paz, pela estabilidade e pela amizade, construído sobre a ética e a espiritualidade".

Em mais uma nova atitude direcionada ao regime teocrático dos aiatolás, a atual Administração democrata americana divulgou na sexta-feira um vídeo dirigido ao povo iraniano e com legendas em farsi (língua falada no Irã) no qual Obama propõe acabar com 30 anos de enfrentamento, se Teerã abandonar sua política de ameaças.

Teerã e Washington romperam seus laços diplomáticos em abril de 1980, quando houve a Revolução Islâmica que derrubou a monarquia pró-ocidental do último xá da Pérsia, Mohammed Reza Pahlevi.

"Nesta fase de recomeço, gostaria de falar claramente aos líderes iranianos", declarou o presidente americano.

Obama falou que existem "sérias diferenças que aumentaram com o tempo", mas disse que seu Governo "está comprometido com uma diplomacia que aborde toda a gama de assuntos pendentes", buscando "laços construtivos entre EUA, Irã e comunidade internacional".

A resposta dada hoje pelo regime iraniano é a mesma repetida nos últimos dois meses.

Em janeiro deste ano, poucos dias depois de Obama assumir a presidência dos EUA e manifestar seu desejo de iniciar um novo capítulo caso Teerã estendesse a mão, Ahmadinejad respondeu que seu país espera uma "mudança fundamental na política americana, baseada no respeito mútuo".

Além disso, o presidente do Irã solicitou um pedido de desculpas oficial dos EUA ao povo iraniano "pelos danos causados no passado".

Hoje, o líder supremo da Revolução iraniana, Ali Khamenei evitou aludir às palavras de Obama e preferiu valorizar o que considerou como os avanços recentes do Irã.

"Triunfos da nação iraniana como a primeira usina nuclear e o lançamento do primeiro satélite fabricado integralmente no Irã convenceram os poderes do mundo de que o progresso não pode ser freado", disse Khamenei.

Apesar das sanções internacionais existentes contra o Irã, o regime dos aiatolás planeja iniciar o funcionamento da usina nuclear de Bushehr a partir de agosto deste ano.

As raízes do conflito remontam a 1953, data em que um golpe de Estado executado pela CIA (agência de inteligência dos EUA) em colaboração com os serviços secretos britânicos derrubou o primeiro-ministro nacionalista Mohammed Mosadegh e devolveu o poder absoluto ao xá.

O Irã deseja que os EUA se desculpem oficialmente por este ato e por todas as conspirações fracassadas que, segundo Teerã, apoiou nos últimos 30 anos para desprestigiar e derrubar o regime dos aiatolás.

"O Irã quer uma reparação internacional, após anos de isolamento.

A abertura de um escritório de interesses em Teerã seria um verdadeiro passo adiante", disse à Efe um alto funcionário iraniano, que não quis se identificar.

Em 1998, com o Irã sob o Governo do reformista Mohamad Khatami, a Administração do ex-presidente americano Bill Clinton admitiu a participação dos EUA na conspiração que derrubou Mosadegh.

Entretanto, a aproximação entre os dois países não frutificou, mesmo depois de Washington ter suspendido parte das sanções econômicas que impôs a Teerã há 30 anos.

As relações entre EUA e Irã pioraram em 2002, durante a administração do ex-presidente americano George W. Bush, depois de a oposição iraniana no exílio denunciar que o país asiático mantinha um programa paralelo e secreto para a aquisição de armas nucleares.

O polêmico programa nuclear, estimulado por Ahmadinejad logo após sua chegada à Presidência iraniana, em 2005, é atualmente o obstáculo principal entre o Irã e a comunidade internacional.

Sobre esse assunto, Obama falou na sexta-feira que o Irã "tem esse direito (de desenvolver o programa nuclear), mas com ele vêm responsabilidades de verdade".

O presidente dos EUA acrescentou que "esse ponto não pode ser alcançado por meio do terrorismo ou das armas, mas sim por meio de ações pacíficas que mostrem a verdadeira grandeza do povo e da civilização iraniana".

No início de março, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, defendeu a participação de Teerã na cúpula internacional sobre o Afeganistão que será realizada no final deste mês.

Em declarações à Efe, Javanfekr confirmou que ainda não houve uma decisão a respeito, mas que a mensagem, "que não surpreende, mas é insuficiente", é um bom sinal. EFE jm/bba/an

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