Irã exige desculpas da UE para dialogar sobre programa nuclear

Por Fredrik Dahl e Parisa Hafezi TEERÃ (Reuters) - Irritado com as críticas da União Europeia ao modo como lidou com os protestos pós-eleição, o governo do Irã acusou nesta quarta-feira o bloco de se intrometer em seus assuntos e exigiu um pedido de desculpas antes de retomar qualquer conversação sobre o controvertido programa nuclear iraniano.

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O principal comandante militar do Irã impôs a condição em meio a contínuas recriminações sobre a eleição presidencial de 12 de junho, na qual o conservador Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito, derrotando rivais que insistem que a eleição foi fraudada para beneficiá-lo.

"Por causa da interferência deste grupo (a UE) nos distúrbios depois da eleição... eles perderam qualificação para manter conversações sobre questões nucleares com o Irã", disse o general Hassan Firouzabadi, segundo a agência semioficial de notícias Fars.

Três potências da UE -- Grã-Bretanha, França e Alemanha -- mantiveram negociações com o Irã sobre suas atividades nucleares, que o Ocidente suspeita tenham como objetivo a produção de bombas atômicas. O Irã diz que o programa é integralmente pacífico.

"Antes de pedirem desculpas por seu grande erro.. eles não têm nenhum direito de falar em negociações nucleares", disse Firouzabadi.

Junto com os Estados Unidos, Rússia e China, as nações do bloco europeu ofereceram ao Irã um pacote de incentivos econômicos, entre outras vantagens, em troca de sua desistência de enriquecer urânio -- um processo de produção de combustível utilizado em usinas de energia elétrica, mas também com potencial de uso na fabricação de bombas atômicas.

O Irã rejeitou a exigência, dizendo ter o direito de enriquecer urânio, já que é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

O governo do presidente dos EUA, Barack Obama, demonstrou interesse em se juntar às negociações, mas os tumultos pós-eleitorais obscureceram as perspectivas de qualquer envolvimento norte-americano com o Irã.

Os ultraconservadores iranianos, que consolidaram seu controle do poder depois que as forças de segurança suprimiram os protestos de rua, culparam as potências estrangeiras pelas manifestações, as mais graves desde a Revolução Islâmica, de 1979.

AHMADINEJAD CANCELA VIAGEM

Ahmadinejad cancelou viagem à Líbia, onde participaria da cúpula da União Africana, encontro que lhe daria nova oportunidade de aparecer em um ambiente internacional potencialmente amigável.

Seu gabinete não deu explicações para a decisão, mas um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores afirmou depois que Ahmadinejad está ocupado demais para deixar o país.

Em uma demonstração de confiança, Ahmadinejad participou de uma cúpula regional na Rússia quatro dias depois da eleição, ignorando os protestos de rua massivos dos partidários dos candidatos derrotados Mirhossein Mousavi e Mehdi Karoubi, que dizem que a votação foi fraudada.

Último colocado nas pesquisas, o reformista Karoubi rejeitou novamente o resultado e prometeu continuar seu questionamento. "Não considero este governo legítimo", diz um comunicado em seu website.

Mousavi acrescentou que o governo é ilegítimo. "É nossa responsabilidade histórica continuar nossos protestos e não abandonar nossos esforços de preservar os direitos da nação", disse ele.

O Conselho dos Guardiões, órgão com função legislativa e de supervisão, endossou na segunda-feira o resultado da eleição e desconsiderou as queixas de irregularidades.

Karoubi e o ex-primeiro-ministro moderado Mousavi se mantêm firmes em sua exigência de anulação da votação, desafiando assim o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, que endossou o resultado e condenou os dissidentes.

"Algumas forças visíveis e invisíveis bloquearam qualquer mudança no poder executivo," queixou-se Karoubi, exigindo a libertação de "milhares" de pessoas que ele diz terem sido presas durante os tumultos.

O chefe da polícia do Irã, Ismail Ahmadi-Moghaddam, afirmou que o número total de detidos é 1.032 e que a maioria foi libertada. Os demais foram "encaminhados às cortes revolucionárias e públicas em Teerã", segundo informou a agência Fars. Ele afirmou que 20 "baderneiros" tinham sido mortos e mais de 500 policiais, feridos.

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