Irã diz que vai elevar enriquecimento de urânio no país

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pediu às autoridades nucleares do país que elevem a 20% o grau de enriquecimento do urânio iraniano - de 5% atuais.

BBC Brasil |

AP
Ahmadinejad anunciou aumento no enriquecimento de urânio
Ahmadinejad anunciou aumento
no enriquecimento de urânio

O anúncio, transmitido pela TV iraniana, foi feito um dia depois que ficou evidente o descompasso entre as autoridades iranianas e porta-vozes dos Estados Unidos e da União Europeia em relação a um possível acordo sobre o programa de enriquecimento de urânio do Irã.

Pelo acordo que vem sendo discutido desde outubro, grande parte do urânio iraniano seria enviada ao exterior com baixo índice de enriquecimento (3,5%).

O material iria para a Rússia ou a França, para ser então enriquecido a 20% e transformado em combustível para reatores.

Entretanto, depois de idas e vindas de negociações, Ahmadinejad procurou neste domingo passar a mensagem de que perdeu a paciência e que pretende enriquecer o urânio no próprio Irã.

"Eu disse, vamos dar a eles (potências ocidentais) dois ou três meses (para chegar a um acordo), e se eles não concordarem, vamos começar a fazer nós mesmos (o enriquecimento de urânio a 20%)", afirmou.

Dirigindo-se ao chefe do programa nwuclear iraniano, Ali Akbar Salehi, o presidente pediu que o país comece a enriquecer o urânio a um nível mais alto.

"Agora, dr. Salehi, comece a fazer 20% com as centrífugas."
Estados Unidos e União Europeia temem que cada aperfeiçoamento na tecnologia nuclear iraniana colabore para o objetivo de permitir ao país construir sua própria bomba nuclear. O governo iraniano alega que seu programa tem fins pacíficos.

O correspondente da BBC para o Irã, Jon Leyne, afirmou que o anúncio de Ahmadinejad cruza uma linha simbólica.

Segundo ele, hoje em dia acredita-se que o Irã simplesmente não possua o conhecimento necessário para transformar esse urânio enriquecido em combustível.

"Portanto, muitos analistas ocidentais crêem que este seja um passo inicial para que o Irã se distancie de seu baixo nível de enriquecimento de urânio atual e se aproxime dos 95% de enriquecimento de urânio necessário para fazer uma bomba", disse o repórter.

"No mínimo, este será visto como um ato de provocação, que tornará as negociações ainda mais difíceis", acrescentou Leyne.

Durante seu discurso, neste domingo, Ahmadinejad disse que "as portas do diálogo estão abertas".

Descompasso

No sábado, o descompasso entre os porta-vozes do Irã e as potências ocidentais ficou evidente durante uma conferência sobre segurança na cidade de Munique, na Alemanha.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irã, Manouchehr Mottaki, disse que o país estava próximo de alcançar um acordo com as potências mundiais em relação ao seu programa nuclear.

"Nas atuais condições, creio que estamos nos aproximando de um acordo final que possa ser aceito por todas as partes", disse, durante uma entrevista coletiva. "A República Islâmica do Irã demonstrou que é séria em relação a isto (a possibilidade de acordo), e no mais alto nível".

Entretanto, os Estados Unidos e a União Europeia responderam com ceticismo à declaração iraniana.

"Eu não tenho a sensação de que estamos próximos de um acordo", reagiu o secretário americano de Defesa, Robert Gates, em Ancara, na Turquia.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, disse que "estamos mantendo nossa mão estendida para o Irã, mas até agora não estamos alcançando nada".

"Não vi nada desde ontem (sexta-feira) que me faça querer mudar minha visão".

Na mesma conferência, a chefe de Relações Exteriores da União Europeia, Catherine Ashton, disse que ainda falta diálogo para "restaurar a confiança na natureza pacífica do programa nuclear iraniano".

Já a China, que se opôe a novas sanções, afirmou que é preciso paciência nas negociações, neste "momento crucial".

"As partes envolvidas devem ter em mente a visão do todo e o interesse de longo prazo, aumentar os esforços diplomáticos, manter a paciência e adotar uma política mais flexível, pragmática e proativa", disse o ministro chinês do Exterior, Yang Jiechi, que também está na conferência de Munique.

"O objetivo é encontrar uma solução ampla, definitiva e de longo prazo através do diálogo e das negociações".

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